Início Opinião Nuno Pires A água do nosso descontentamento

A água do nosso descontentamento

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Elvas estremeceu.

Não foi culpa do Félix que trouxe ventos fortes e água com fartura, que ressuscitou regatos e ribeiras, devolvendo-nos vida e esperança.

Apesar da força da natureza, outra se lhe sobrepôs, alarmando a maioria, se não a totalidade dos elvenses. Dominou as conversas nas casas, pastelarias e café, nos cabeleireiros e barbearias (daqui deixo já a dica a uns certos tertulianos de uma barbearia que eu conheço).

Refiro-me à conta da água. A ameaça já pairava mas este mês tornou-se concretização. Chegou às caixas de correio e deixou-nos a todos de boca aberta. Foi quase como ir a um restaurante que frequentamos com regularidade, comemos o mesmo de sempre e quando chega a conta apetece-nos perguntar: “partimos alguma coisa?”.

Dir-me-ão, “ah e tal, mas o mês passado enviaram uma carta pelo correio onde davam conta da atualização dos tarifários”. Mais uma daquelas a quem a maioria não fez caso, contando com um incremento da fatura equiparável ao aumento da inflação. Puro engano.

Nuno Franco Pires
Nuno Franco Pires, escritor

Não me considerando uma pessoa analfabeta, mas não sendo também nenhum suprassumo da inteligência, dei por mim a analisar a fatura e sem conseguir tirar grandes ilações. Indicadas estão um sem fim de linhas com acertos, diversos períodos temporais e designações que não lembram ao diabo. Não sei se denotam falta de imaginação de quem as definiu ou se foram conscientemente escolhidas para que não percebêssemos patavina: “TAR Disponibilidade água, TRH – Água Adm Central, Saneamento Fixo, Saneamento Variável. Talvez seja ignorância minha, mas uma legenda no final do documento poderia elucidar-nos do que estamos a pagar. Dir-me-ão: “e o que ganhávamos com isso, não tínhamos de pagar à mesma”. Sim, mas em consciência.

A verdade é que quase dupliquei o custo do mês anterior, numa altura do ano em que o meu consumo não é muito elevado, como não o será o da maioria dos elvenses. O aumento é em toda a escala, desde o custo por metro cúbico, até às taxas e taxinhas, resíduos sólidos e afins.

Explicações? Nenhumas. Nós por cá estamos habituados a comer e calar

Compreendo que vivemos numa região que dispõe de poucos recursos hídricos, veja-se os dois anos consecutivos de seca e o estado em que temos a barragem do Caia. Acredito que seja necessário fomentar um consumo mais sério e responsável e a verdade é que o português muitas vezes só percebe quando lhe vão ao bolso. Ainda assim, abusaram na receita.

A água é um bem essencial à vida, todos necessitamos dela para as mais variadíssimas funções. Privatizaram o serviço com promessas de melhorar a prestação e beneficiar as populações. Diz que modernizaram e fizeram investimentos. Os privados não brincam em serviço, visam o lucro. Se calhar talvez por isso seja perigoso entregar-lhe a concessão destes bens.

E agora? As lamúrias permanecerão por mais alguns dias, os mais afoitos irão queixar-se aos serviços. E depois? Depois o nosso clube de eleição joga ou vem a páscoa e temos de comer o borrego, chegam as férias e o assunto cai no esquecimento. Entre tudo isso, pagamos, pagamos e pagamos. E alguns faturam, faturam, faturam.

Enquanto elvense e consumidor sinto-me lesado, enganado e saqueado. O que podemos fazer? Não sei. Pela minha parte deixo aqui publicamente o meu descontentamento. Quem quiser que junte a sua à minha voz.

Palavras leva-as o vento.

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Nuno Franco Pires
Nuno Franco Pires, nasceu em Elvas em 1975 e é um alentejano orgulhoso das suas raízes. Gosta de escrever – sempre gostou. Começou por pequenas histórias, onde os amigos de infância eram os protagonistas, passando pelo blog Dualidades (asdualidades.blogspot.com) do qual foi coautor e onde abordava temas que marcavam a actualidade. Cativam-no as relações humanas e a interacção entre as pessoas; é sobre elas que escreve. Tem participado e vários concursos literários tendo ganho uma menção honrosa no prémio Glória Marreiros, organizado pela Câmara Municipal de Portimão, com a novela "Amor entre muralhas" escrita em parceria. Participou na colectânea "Ei-los que partem" da editora Papel d' Arroz e com a chancela da Chiado Editora editou o seu primeiro romance, "Searas ao vento". Colaborou com a TV Guadiana, publicando semanalmente, pequenas histórias da sua autoria e incorpora o painel de tertulianos da rúbrica "Conversas de Barbearia" do blog Três Paixões.