A Alegria de Cada Dia

Paula Freire, opinião
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Tenho uma amiga que está doente. Prognóstico reservado após diagnóstico confirmado: falta de alegria.

Felizmente, posso falar com ela. Infelizmente não posso estar sempre com ela. Mora longe. Por isso, e porque sei que é dos velhos tempos em que uma carta recebida com afeto tinha o gosto bom do melhor abraço, hoje aqui estou para lhe dizer o que talvez precise de saber. Ainda que eu, por acaso um pouco mais nova do que ela em idade, muito mais tenha a aprender com a sua sabedoria.

Pois posso garantir-vos que ela é sábia, sim senhor. Tem um jeito terno de compreender a vida que, digo-vos, alguns poderão até invejar.

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A mim, que a conheço há tantos anos, já me ensinou bastante.

Contou-me sobre as flores do seu jardim, com quem tem misteriosas conversas que só elas entendem. E das suas plantas aromáticas que cultiva com desvelo e com quem aprende segredos antigos. Dos passeios que faz a pé, por recantos escondidos de longos caminhos, acompanhada pela amizade inigualável da sua pequenina Estrela. Dos abraços silenciosos do pai que partiu e onde encontra o refúgio de algumas solidões.

Vive num cantinho paradisíaco do nosso Portugal, a minha amiga. E, no entanto, a sentença foi ditada sem lugar a discussão: falta de alegria. Irrefutável.

Como a minha amiga, acredito haverem por este país fora muitos seres genuínos com padecimento semelhante.

É certo que uma grande parte dos contextos e circunstâncias do quotidiano não são dados a despertar sentimentos de beatitude e contentamento.

Contudo, ainda dou comigo a pensar de vez em quando, se se trata efetivamente da nossa falta de alegria ou se esta emoção tão revigoradora de que nos sentimos privados não será, em grande parte, resultado de obstinada insistência em carregarmos a bagagem alheia que não nos pertence.

A-Alegria-de-Cada-DiaA alegria que vemos escondida, desviada das palavras diárias e dos gestos mais importantes que nos fazem sentir gente. A alegria fugidia que brinca ao faz-de-conta nos olhos de homens e mulheres em busca da felicidade como fim último. Os rostos e dias tristes de tantos que persistem na procura da sua alegria em recompensas materiais instantâneas.

Pertences de uma mala que não somos obrigados a possuir como sendo nossa. Sem culpas, já que não podemos ter a pretensão de querer mudar, a qualquer custo, o mundo. Nem sequer o mundo dos que nos são mais próximos.

Quase sempre, cada um de nós é fazedor das suas realidades e, quase sempre, a realidade é o corolário de várias escolhas. Dar a mão não significa oferecer o corpo todo. E já agora, a alma também.

Gostaria ainda de perguntar à minha amiga, e a vós igualmente, se se recordam da última vez que repararam num arco-íris. Dizem que eles apenas existem se houverem nuvens e chuva no horizonte, não é?

Podemos todos perceber muito pouco de arcos-íris, mas com toda a certeza percebemos muito mais da tristeza. E sabemos que ela é necessária para entendermos a alegria.

Bem lá dentro acreditamos, por mais que andem por aí a querer impingir-nos o contrário, que tristeza não é pecado. Porquanto, pode ser somente uma forma tranquila de pedirmos licença aos outros para existirmos e para fazermos valer o direito de sermos humanos. O letreiro na porta: Ocupado. Comigo mesmo.

Além de que, tantas vezes, é nos nossos momentos mais tristes que o imprevisto acontece e, sem querer, nos traz uma pequena alegria: o chilreio musical de um pássaro que escutamos na insónia da manhã; o gosto da manteiga derretida no pão quentinho que acabamos de trincar; a gargalhada sonora que escapou da boca de uma criança; um poético entardecer que nos desce sobre os olhos espantados…

Não fosse a tristeza, entenderíamos nós estas alegrias?

E qual de vós me convencerá que a saudade não é um sentimento triste que nasceu daquilo que, outrora, foi júbilo e prazer?

Afinal, muitas são as noites em que com a tristeza adormecemos e, quem sabe, sonhamos para no dia seguinte acordarmos cheios de certeza de que hoje… Bem, hoje serei mais forte. Hoje, serei eu.

E, sem nos apercebermos, agarramos de novo a alegria de viver.

Julgo que o mais importante é nunca deixarmos que esta se esconda definitivamente de nós. Porque então, talvez aí, sim, corramos o risco de nunca voltarmos a encontrar-nos com ela nos espaços mais simples da vida. Aqueles sítios acolhedores onde moram todos os instantes felizes, que nos dão corda ao relógio do coração, e onde habitam as pessoas que decidimos amar.

Para que, no final, chegada a hora de partir, possamos ter aproveitado com valor e sabor a verdadeira alegria de cada dia.


A articulista actua como Colaboradora do Portal Elvasnews e o texto acima expressa somente o ponto de vista da autora, sendo o conteúdo de sua total responsabilidade.

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Paula Freire
Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside actualmente em Vila Nova de Gaia. Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas das Relações Humanas e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada. Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias. O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora de imagens de capa de obras poéticas lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021. Nos últimos anos, descobriu-se também no seu ‘amor’ pela arte da fotografia onde aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.