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Não sei se o meu corpo está contaminado por COVID-19 quando escrevo este artigo. Mas sei que, inevitavelmente, este vírus veio contaminar os mundos de vida de tod@s @s cientistas sociais, desde as formas de organização do trabalho científico e de conciliação entre trabalho e família, até à forma como moldam os objectos de estudo e se relacionam com @s interlocutores nos respectivos terrenos. Não há tema nem pessoa que não experimente alguma forma de contaminação social e simbólica pelo COVID-19, esteja ou não biologicamente infectada.

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As situações de confinamento físico e de suspensão de uma vida quotidiana naturalizada e rotineira com que a pandemia nos defronta, constituem novos desafios na vida pessoal e social que impulsionam novas linhas de investigação, não apenas em termos de objectos de estudo, mas também de aproximações teóricas e de desenhos de pesquisa.

O COVID-19 contamina a vida social e, por esta via, as ciências sociais, nas suas teorias e métodos. Preparemo-nos conceptualmente para ele, pois a sua presença, senão física certamente no nosso imaginário, contaminará falas e gestos, formas de pensar e de proceder dos nossos interlocutores, sejam eles individuais ou colectivos. O COVID-19 é já uma realidade vivida por tod@s, de forma diversa e desigual, e continuará a ser durante um longo tempo.

Viveremos uma época pós-COVID? Talvez. Talvez venha a constituir aquele marcador geracional que virá a coligir as várias letras (Y, X, Z…) e categorias que se têm multiplicado para qualificar os jovens e crianças de hoje como geração distinta das suas predecessoras. Talvez venha a constituir um acontecimento condensador das diversas “crises” que têm atravessado recentemente as sociedades neoliberais, um evento estrutural e globalmente disruptivo, cujos impactos serão sentidos como um ponto de viragem nas formas de experienciar os percursos de vida dos que, daqui para a frente, mais tempo terão para sentir os seus efeitos. Dependerá da intensidade que virá a atingir, e das resistências das várias economias e democracias.

Apanhados desprevenidos, neste momento há que pensar como reformular as nossas questões de partida, como readaptar as nossas abordagens e hipóteses teóricas, como continuar os nossos caminhos de pesquisa por forma a acolher a inevitável contaminação simbólica e social dos nossos objectos de estudo pelo COVID-19, e integrá-la nos nossos dispositivos de compreensão, explicação e observação do mundo.

Não há que parar a pesquisa quando parece que o objecto de estudo deixou de fazer sentido, quando o terreno aparenta ter desaparecido. Dei conta disso quando uma investigadora que trabalha num projecto de pesquisa sobre formas de existência e de resistência dos jovens perante o intenso processo de turistificação de Lisboa e de Goa, me mostrava o seu desalento perante o eventual desaparecimento do seu objecto e terreno. O que fazer?

Não vale a pena parar, a não ser para pensar. Urge acompanhar como os nossos objectos de estudo e questões de pesquisa se vão configurando durante a pandemia. Urge olhar para o momento presente e ver como podemos continuar a observar os nossos terrenos, criando e accionando dispositivos metodológicos que nos permitam observar a partir de casa.

Dei comigo a olhar pela janela e a pensar se poderíamos recuperar esse dispositivo de observação tão treinado por vizinhas e vizinhos, de ficar à janela a ver quem passa e o que se passa. Pode ser. Mas seria um foco muito limitado e limitante no alcance que poderia proporcionar. Como comentava uma amiga a quem dei a ler uma versão deste texto, à janela vemos apenas as sombras de quem passa no nosso ângulo de visão. Podemos descobrir o olhar inquieto, o corpo que segue numa atitude contida, como que procurando proteger-se do inimigo invisível, omnipresente, mas não temos acesso àquele que é, nesta fase, o contexto mais significativo da sua experiência social: a casa, onde nos obrigamos a permanecer confinados.

Todavia, temos hoje muitas outras janelas de oportunidade que atravessam as paredes de nossas casas sem ter de sair, janelas que também nos permitem ver de perto, escutar activamente, perscrutar realidades além do nosso campo de visão doméstico e imediato. É hora de respeitar também metodologicamente a necessária distância proxémica, e de sermos criativos nas formas de aproximação aos objectos e sujeitos de estudo.

Hoje, mais do que nunca, os cientistas sociais estão a viver um mundo aos quadradinhos através das várias janelas que os fazem comunicar com o mundo exterior, familiares, estudantes, colegas de trabalho, etc. Então, e por que não também comunicar com os nossos interlocutores? Desde o Windows ao Zoom, do Skype ao WhatsApp, dos vários canais de TV às várias redes sociais, dos websites e às diversas plataformas digitais, estes são alguns dos dispositivos tecnológicos que temos à disposição para comunicar, para aceder a informação importante para as nossas pesquisas, e para acompanhar a contaminação dos nossos temas por efeito da pandemia.

Enfim, a partir de casa temos todo um manancial de janelas e de dispositivos que nos permitem acompanhar, observar e interagir longitudinalmente com uma realidade que se alastra por todas as esferas da vida das pessoas e do planeta. Fazer entrevistas ou grupos focais online, num período onde talvez as pessoas estejam com mais tempo e disponibilidade de falar de si e do que estão a viver. Observar como falam e se organizam no Facebook, como aparecem visualmente no Instagram, como os temas são designados através de hashtags, como são abordados nos meios de comunicação social e nas redes sociais…

Todo um mundo aos quadradinhos que, a partir de casa, nos possibilita compreender as actuais cosmogonias e agonias, testemunhar experiências e vivências, acompanhar as mudanças em que as pessoas se vêem conjunturalmente implicadas, mas que, mais à frente, poderão resultar em transformações estruturais dos seus padrões de atitudes, valores, representações e comportamentos sociais quotidianos.

Estamos perante um acontecimento histórico sem par, o qual é nossa responsabilidade, enquanto cientistas sociais, acompanhar e integrar nos projectos que presentemente temos em mãos, pois estes com certeza não serão os mesmos que havíamos previsto quando os construímos, depois do momento que o mundo está a passar.

Mas estamos também perante um excelente laboratório para a captação de tendências sociais emergentes em várias dimensões da vida quotidiana. Trata-se de uma experiência onde cada um de nós pode ser, simultaneamente, sujeito e objecto, e que nos deve desafiar, enquanto cientistas sociais, quer de um ponto teórico – estimulando a criação de novos conceitos para a compreensão e explicação de novas realidades – quer de um ponto de vista metodológico – activando a necessidade de criar novos instrumentos (ou reequacionar os mais ortodoxos) e técnicas de captação, sistematização e análise dessas mesmas realidades. Há que deixar, portanto, contaminar a nossa prática científica actual pelo COVID-19. Mas só aí. Por mais que nos custe, por enquanto, também devemos manter tanto quanto possível o nosso mundo aos quadradinhos.

Por Vítor Sérgio Ferreira

Victor Sérgio FerreiraVitor Sérgio Ferreira é sociólogo, investigador auxiliar no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e coordenador do grupo de investigação LIFE – Percursos de Vida, Desigualdades e Solidariedades: Práticas e Políticas