eskhatos
   Publicidade   
   Publicidade   
   Publicidade   

Opinião de Risoleta C Pinto PedroComeço por lembrar que o significado de parvo é pequeno, daí a pequenez desta teoria, a que o leitor deve dar relativa importância.

   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 

Em algumas pessoas, acontecimentos como a pandemia que estamos a viver, geram uma certeza da aceleração e iminente chegada do fim, um apocalipse já tantas vezes anunciado e adiado.

Algo entre a teleologia (cuja origem se encontra nos mitos, partindo do princípio de que acontecimentos e coisas têm origem no sobrenatural, um pouco à semelhança da tragédia grega; no Fédon de Platão, afirma-se que a explicação para os fenómenos físicos é teleológica) e a escatologia, uma área da teleologia que se debruça sobre as profecias. É um conceito sustentado por dois termos gregos: eskhatos (último) e logos (palavra).

Ora existe um outro sentido para a palavra escatologia, que tem a ver com os dejectos do corpo, sendo que esta palavra vem de skatós, que significa excremento. Os meus dois distantes anos de estudo do grego não foram suficientes para saber se skhatos e skatós são palavras distintas  ou a mesma.

É claro que alguma relação existe, já que o excremento é o último elo da cadeia que se iniciou na boca.

As minhas avós de S. Vicente, quando tinham problemas na vida, queixavam-se de ter muitas fezes ou de que alguém lhes dava muitas fezes. Isto era sinónimo de preocupações. Queriam elas dizer que problemas não lhes faltavam. Acredito que gostariam de se ver livres das fezes barra preocupações com a mesma facilidade com que se faz com os excrementos.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

E isto dá que pensar. Agora que reflicto sobre esta memória, fica claro que se queixava mais de ter muitas fezes aquela que tinha menos fé. Logo, deduzia eu, as fezes eram o contrário da fé. Sem fé, mais ralações, com fé, menos preocupações. Se em tempos como este, em que a escatologia toma relevo através das profecias sobre o fim do mundo que vêm ao de cima, a segunda escatologia, se me é permitido dizer assim, a que tem mesmo a ver com as fezes, não deixa de ser menos imperativa, já que as profecias escatológicas causam medo, e o medo provoca dores de barriga e não são poucas. Daí as mãos que se dirigiram inconscientemente, acredito, para as prateleiras do papel higiénico nos supermercados. Quanto mais “fezes”, mais fezes. Se é que me entendem.

Para alguns, este momento é quase apocalíptico no sentido mais comum, aquele que vê nos eventos o prenúncio do fim. Acontece que neste caso pode ter acontecido, justamente, o contrário. Mau grado as mortes e o sofrimento que não posso, que não podemos deixar de lamentar, o mundo anda mais limpo, com menos “fezes”, em todos os sentidos. Pronto para um novo princípio. E em todos os pontos cardeais. Em baixo e em cima. E nos elementos: terra, água, ar. Deixo o fogo de parte, que já é, por si, um poderoso elemento de limpeza, embora tenha tendência, por vezes, para exagerar, sobretudo em mãos dos que dele fazem mau uso. Mas nunca o fogo destrói tanto como a humanidade. Quando o faz é ao serviço desta.

Apocalipse, no seu sentido autêntico ou original, não significa fim, mas “revelação”, a qual não tem de ser igual para todos. Que cada um seja surpreendido pela sua própria revelação, que não a queira tornar universal, viral ou pandémica, que é sempre o risco das revelações: o seu lado ditatorial ou universal por decreto ou vontade de um, de poucos.

Tudo isto pela tendência que tem a humanidade para olhar o que não compreende como vindo das forças do mal, ou do… bem. Quando é o mal que vê à solta, ou se entrega à depressão ou a uma espécie de exaltação quase mística, algo de loucura divina possuindo a humanidade.

Quando nestes acontecimentos vê a obra de forças do bem, como se não houvesse sempre gente a morrer, mas bem mais longe, em África, no Mediterrâneo, em lugares onde não nos toca tanto, não deixa de ser igualmente inquietante, outra forma de loucura mística abusivamente vestida de trajes ecológicos ou sacerdotais.

E andamos nisto, numa imaginária guerra entre anjos caídos e anjos do céu, para não vermos a força do mal que tem sido a nossa própria acção sobre a terra, uns mais, outros menos, poucos ficando de fora, embora haja sempre os que lavam as mãos, que neste momento somos todos. Que este lavar de mãos seja hoje tudo menos simbólico, que seja totalmente literal.

Quando o que necessitamos é curvarmo-nos sobre nós mesmos não em modo de comiseração, mas de observação imparcial, auto-análise, mangas arregaçadas, compaixão e lição aprendida até ao alargamento do horizonte. Parece simples, mas não é fácil. E sem fé, dá muitas fezes. Queridas avós Ana Carlota e Joaquina Rosa, mestres cada uma à sua maneira!

Artigo anteriorCOVID-19 | 25 casos recuperados no Espadanal
Próximo artigoNúmero de mortos em Espanha continua em queda
Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.