A6 Fronteira do Caia - Elvas
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Opinião de Risoleta C Pinto PedroA primeira vez que, conscientemente, fui a Espanha, senti uma emoção como quem chega à Terra Prometida.

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Quem olha hoje a raia portuguesa, nomeadamente esta de Elvas, a que mais nos diz respeito e melhor conhecemos, não vê tudo, existe um passado oculto que já nenhum dos vivos conheceu e que, contudo, formou aquilo que somos. Tem a ver com os judeus, neste caso falo dos espanhóis e os seus problemas não começaram com a expulsão decretada pelos reis católicos. Já antes, em 1378, um arquidiácono de uma diocese próxima de Sevilha, exortava o povo, preparado para linchamentos, para que atacasse os judeus, não apenas nas sinagogas, mas por todo o lado. Tal aconteceu, e mesmo com a desaprovação da Coroa, houve um massacre de milhares de judeus, e sinagogas destruídas e incendiadas. Em 1391 o bairro judaico de Valença foi saqueado e a maioria dos habitantes assassinada; alguns convertidos à força. Outros conseguiram fugir para o Magreb. Neste ano, os massacres repetiram-se na Andaluzia, em Castela e depois por todo o país. Linchamentos, destruição, conversões e fugas. Sobraram disto tudo: convertidos para vigiar, judeus para perseguir e mortos para enterrar.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

É esta a descrição que faz Pierre Assouline, em Regresso a Séfarad, do tempo em que os seus antepassados tiveram de abandonar a sua terra. E “sua terra” é a expressão correcta, pois aí viviam há gerações e gerações, e como muito bem afirma Antonio Muñoz Molina, os judeus expulsos não eram estrangeiros de passagem, não eram migrantes ou clandestinos, e os filhos cantavam as mesmas canções que as outras crianças da Andaluzia ou de Castela, falavam a mesma língua, havia séculos que faziam parte do ADN humano e geográfico de Espanha. Assim, para além da justiça, considera esta expulsão depois continuada em grande escala pelos reis, com o decreto de expulsão em 1492, como «uma amputação». Na fuga, morreram crianças e idosos, por má nutrição, epidemias e cansaço. Houve violações, muitos foram vendidos como escravos, uma imensa má ventura. Pouquíssimas foram as famílias que chegaram intactas aos sítios aonde se dirigiam. Ainda assim, muitos se arrependeram e tiveram a tentação de voltar, apesar do perigo da viagem, do perigo do regresso. A saudade do lar, do país, era muita, e como houve um decreto real a abrir as fronteiras hispano-portuguesas aos que quisessem voltar, devendo retomar o mesmo caminho, em sentido inverso, muitos regressaram. Um exilado que tivesse saído por Badajoz, deveria regressar por aí. Após a obtenção de um salvo-conduto, recuperaria os seus bens na condição de voltar a comprá-los. O reino ficava com a glória de estes retornados o terem feito por finalmente se terem convertido, e ficava também… com as jóias, o ouro e o dinheiro que tinham conseguido levar consigo e com que agora compravam o que tinha sido seu. Acredito que muitos não terão querido sujeitar-se a tal ignomínia e tenham preferido ficar deste lado. Quantos de nós que nascemos junto da fronteira e cujas famílias aí radicam há gerações e gerações não terão nascido desses exilados regressados em busca do consolo da terra, do consolo da língua, do consolo do tempo, do consolo das raízes. Talvez por isso nós portugueses, nomeadamente os da raia, sintamos um amor pela terra espanhola como se aí tivéssemos nascido…

Talvez a minha emoção da primeira ida a Espanha tenha a ver com isso, talvez tenha a ver com o facto de a minha mãe, desde sempre e enquanto viveu no Alentejo, ir com frequência a Espanha, e provavelmente eu já lá teria estado durante a sua gravidez, e nesse caso não deixa de ser um regresso. Pode ser, também, uma coincidência das duas. Nunca saberei, mas gosto de pensar que sim… Vivíamos em Santa Eulália quando eu nasci, mas a minha mãe foi ter o parto em S. Vicente, na sua casa de solteira, junto dos pais e mais perto de… Espanha.

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Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.