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Opinião de Risoleta C Pinto PedroDe vez em quando tenho umas obsessões. Depois passam, como a maior parte das obsessões saudáveis. Normalmente têm a ver com leituras, autores. Uma que me tem ocupado bastante, mas sinto que está a passar (não o interesse, mas a obsessão) é a de um livro cujo autor faz a narrativa do regresso a Espanha por conta do seu passado sefardita, expulsa que, como muitas outras, fora a sua família, na Idade Média. Muitos obstáculos teve de vencer, o descendente francês destes sefarditas espanhóis, desde os de carácter burocrático, à opinião dos amigos e família. É apaixonante acompanhá-lo neste êxodo ao contrário, nesta Diáspora do regresso. Para além de que, sendo jornalista, domina muito bem a língua, pode dizer-se que é um excelente escritor. Temos em comum o gosto pelo passado, a alegria do regresso, a magia da presentificação do que já passou. Estas crónicas são, para mim, uma forma de voltar ao Alentejo sem ter de me deslocar. Não que não goste, pelo contrário, mas porque não é prático nem possível regressar a cada quinze dias, e esta é uma forma de manter o diálogo com os vivos e os mortos, com os espaços e as memórias. Dá-me saúde e boa disposição, aproxima-me de mim e orienta-me no planeta, eu que, por ter passado os meses em que as crianças normalmente gatinham, sentada numa cadeira alta de bebé a uma camilha da cozinha alentejana de Santa Eulália, pelo frio do Inverno e o chão ser de tijoleira, fiquei, como os pedagogos tão bem explicam, com um problema de orientação espacial. Por não ter explorado o espaço nesse terceiro e parte do quarto trimestre de vida, nunca sei muito bem para que lado estou virada. Mas tendo o Alentejo como centro, nunca me perco, coloco aí a minha rosa-dos-ventos e no meio um catavento. Melhor que o Waze nos seus melhores dias.

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Isto, a propósito de uma passagem de Pierre Assouline que assino por baixo:

«Deixar de ter o passado como horizonte, por menos que isso vai-se parar ao divã do psicanalista. Eu preferi ir aos Espanhóis. Só para ficar a conhecê-los melhor. Deveríamos conseguir amar as pessoas não pelas suas qualidades, mas apesar dos seus defeitos.»

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Não me parece que tenha algum tipo de influência oriental, este sefardita descendente de judeus expulsos, mas Buda ou S. Francisco não diriam melhor. Talvez o amor não seja exclusivamente uma questão de bondade, mas necessite do tempero da inteligência e da racionalidade.

Prossegue Assouline com algo que eu gostaria de ter escrito, mas como não o fiz ao menos transcrevo, do mal o menos:

«Pensei que ao voltar-me para trás com o fim único de não me perder de vista, a preocupação da minha vida não se limitaria à simples sobrevivência, e que após isso, ela iria beber, antes de agir, não no medo, não no interesse, mas no sentimento da existência de valores mais altos».

Faz-me lembrar o poeta romeno Marin Sorescu, que tem um poema que começa assim: «Há muito suspeitava de mim mesmo/ e hoje persegui-me durante todo o dia a uma distância que evitasse suspeitas».

Procurar o passado numa terra que ficou para trás, seja ela uma aldeia do Alentejo, seja todo um país como Espanha, seja uma comuna romena, significa que se se regressa a algum lado, é porque dentro de nós existe aquele que retorna, afirma Assouline. Aquele que procura e não encontrando o que procura, sabe que o que encontra o ensina sobre aquilo que procura.

Seja como for, há uma certeza de que o voltar ao passado não é necessariamente alimentar a nostalgia, mas aprender sobre uma parte desconhecida, mas talvez a mais íntima de nós.

E a propósito desse vírus altamente contagioso que por aí vem crescendo, que quer fazer desaparecer sinais do passado nas obras de arte, volto a repetir Assouline:

«Deveríamos conseguir amar as pessoas não pelas suas qualidades, mas apesar dos seus defeitos.»

Porque os países são como nós, feitos de e por pessoas, não adianta tentar eliminar o passado e apagar os erros, corre-se o risco de os virmos a repetir. Parece-me isto tão elementar…

Que me seja perdoada a obsessão, pois, como diz ainda este autor: «Devemos ser leais para com as nossas obsessões desde que aquilo que temos para escrever venha do mais fundo de nós». É o caso.

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Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.