A Lição do Professor A.

Paula Freire, opinião
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Conheci o professor A. quando tinha os meus dezasseis anos.

Altura em que pelas mãos de um amigo fui conduzida às instalações do jornal da vila e, então, convidada para colaborar num espaço com as minhas pequenas crónicas. Um espaço só para mim onde podia dar a minha opinião sobre o assunto que entendesse e fazer dançar os acordes da minha imaginação.

Alto, um tanto curvado pelo peso dos anos, como o caule de uma flor delicada. O professor A. tinha a afabilidade na voz rouca e arrastada, os olhos pequeninos, dignos e sinceros, com os óculos de armação praticamente invisível, na ponta do nariz, a fazer lembrar uma personagem de Charles Dickens, a quem só faltava a cartola para compor a figura quase lírica.

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Apesar da aparente fragilidade, percebi que era daquelas pessoas a quem podiam abanar e sacudir, que jamais seriam incapazes de destruir-lhe a honradez do caráter, recolhida numa armadura à prova de chibatadas.

No rosto, uma alegria franca de quem se ajoelha e beija a vida com a sabedoria e a grandeza da intelectualidade.

Naquele tempo, muito longe ainda do digital, tudo era escrito à mão e entregue pessoalmente no local.

Numa dessas entregas, em que as instalações do jornal se encontravam encerradas por ser dia de feriado municipal, bati timidamente à porta do professor A. para lhe deixar ficar o meu texto da semana, acabadinho de escrever.

Nessa visita, conduziu-me ao escritório situado nos fundos da casa, com a garantia de que iria revelar-me um tesouro.

A Lição do Professor AEra, de facto, um tesouro aquele pequeno escritório virado para as traseiras do imóvel, com duas laranjeiras lá fora, no quintal, a servirem de pomar.

Mais do que um simples escritório, era uma biblioteca. Apresentou-me o aposento:

– A minha gaiola. É aqui que sou livre.

E continuou, perante a minha admiração face a um panorama tão imprevisto e que, ao mesmo tempo, senti profundamente acolhedor.

– Os livros são como carros antigos. Quanto mais velhos, mais me afeiçoo a eles.

Fiquei parada no meio da pequena saleta. A respiração presa no deslumbramento das sombras e da luz, como fina névoa refletida nas antigas estantes de carvalho, sobre o papel emudecido com cheiro a uma mistura de acidez, madeira velha e tabaco.

E todos aqueles livros já gastos e amarelados pelo tempo, de lombadas duras, mas elegantemente sumptuosos, salpicados pelo brilho morno e melancólico do entardecer.

Os imortais baluartes da literatura portuguesa e mundial. Todos ali, ao alcance da minha vista, a quererem mostrar a riqueza e beleza humanas e divinas, num pedaço único de arte. Kafka, Voltaire, Dante, Byron, Shakespeare, Gautier, Dumas, Comte, Lorca, Victor Hugo, Camões, Júlio Dinis, Herculano, Pessanha, Ortigão, Camilo, Eça, Pessoa…

Ambiciosamente, dei comigo a tentar adivinhar-lhes os mistérios das palavras perfumadas, da música cantada pelas letras neles gravadas. Os espíritos, os monstros, os heróis e heroínas que habitavam, em aventuras grandiosas, as linhas daquelas páginas.

 – Sabes o que nos fala um livro? – Questionou-me o professor A. com um brio elegante no olhar.

Gostei da ideia. Um livro tem voz?

– Diz-nos que não somos metal. Somos coração. – Adiantou. E aproximou-se de um móvel disposto a um canto do escritório, pegou numa dessas relíquias e ofereceu-ma para as mãos.

Perante a minha expressão ingénua de alguma estranheza, concluiu:

– Parece-me que para compreenderes melhor o que te digo, tens que sentir.

Deixou-me a divagar por alguns segundos sobre o comentário que fez e, por fim, rematou:

– Nada existe de melhor para começares a entender o impulso intuitivo que tens dentro de ti: ler um livro de alma e corpo inteiros. Nunca como se estivesses a ler notas soltas para distraíres os olhos. Tens que senti-lo, descobrir a energia que o anima, a nobreza do génio que o inspirou, as milhentas emoções que te podem despertar. Tens que o alcançar com a magia de todos os sentidos. E sabes qual o segredo do epílogo que todos os livros guardam? As inspirações que bebes em cada um deles e que te permitem bater asas e voar para longe.

– Então, um livro é como um professor silencioso? – Perguntei.

Anuiu, com um sorriso meditativo e um aceno de cabeça, como se tivesse, naquele instante, feito ele próprio uma descoberta.

– Exatamente.

Uma lição que recebi nesse dia: o que guardamos melhor na memória é, sem dúvida, o que experimentamos.

Talvez por isso, neste momento, envolveu-me uma saudade imensa de voltar a abraçar com o pensamento, o prazer consolador daqueles livros envelhecidos do professor A.

Nunca, como hoje, tivemos um acesso tão facilitado à leitura. Facilidade, quantidade, diversificação. Nunca como hoje tivemos tantas bibliotecas à disposição. Bibliotecas cheias de livros e vazias de gente.

Continuamos a ser um povo de brandas leituras apesar do tanto que já melhoramos nesse aspeto. Numa era essencialmente virtual, conhecer o aroma, a textura e a essência dos livros não faz parte dos hábitos diários, nem mesmo em tempos de lazer.

Antes, segurávamos um livro entre as mãos e, de pés no chão, seguíamos até às nuvens para nos encontrarmos com outras realidades. Curiosamente, no presente, andamos todos a viajar pela grande nuvem para conseguirmos perceber a vida na terra.


A articulista actua como Colaboradora do Portal Elvasnews e o texto acima expressa somente o ponto de vista da autora, sendo o conteúdo de sua total responsabilidade.

 

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Paula Freire
Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside actualmente em Vila Nova de Gaia. Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas das Relações Humanas e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada. Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias. O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora de imagens de capa de obras poéticas lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021. Nos últimos anos, descobriu-se também no seu ‘amor’ pela arte da fotografia onde aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.