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Opinião de Risoleta C Pinto PedroExemplos do que hoje aqui trago não faltam, cito apenas alguns para melhor complementar a reflexão: a antiga prisão do Aljube, hoje Museu, documento histórico e político de uma época; e uma outra antiga prisão, em Badajoz, actualmente transformada em Museu de Arte Moderna e Contemporânea.

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São ambos casos de espaços alquimizados, ou pelo estudo e divulgação, ou pela arte.

Confesso que não consigo, na antiga prisão de Badajoz, deixar de sentir o confinamento anterior, talvez pela sua estrutura circular que me recorda a vigilância constante de que os presos eram alvo; também no Aljube não é possível alhear-me da violência da restrição à liberdade e da tortura ali vivida por tantos, mas penso sempre em Bocage, em Agostinho da Silva. É verdade que nada do que ali acontece ou se exibe, procura que o esqueçamos, pelo contrário, e ainda bem, mas o mesmo já não se passa em Badajoz; a arte é a maior das alquimias, ainda assim não suficiente para me fazer esquecer a antiga função.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Outro importante exemplo é a Cadeia da Relação, no Porto, onde esteve Camilo, hoje Centro Português de Fotografia, a honrar os “retratos” magníficos das descrições e narrativas do escritor. Também neste espaço me é difícil não pensar nas dores presenciadas pelas velhas testemunhas que são as tão silenciosas quanto eloquentes paredes.

No entanto, algo distinto (ou talvez igual?) me sucedeu em Elvas, sendo que aí, a situação é muito diferente.

Imagine o leitor que o seu templo de eleição, seja o leitor hindu, budista, cristão, judeu, muçulmano, de qualquer outra religião, ou até mesmo ateu que tenha por determinado templo uma admiração particular de ordem emocional, estética ou histórica, imagine que esse “seu” templo é transformado em açougue, o que vai sentir como a maior das ignomínias. Da dor à indignação, revolta e talvez até medo, acompanhados de impossibilidade de qualquer tipo de acção, pois quem o fez tem poder e pode fazer pior, é um peso a transformar consigo, é um espaço sagrado violado, dentro e fora de si.

Casa da História Judaica de ElvasFoi exactamente isto que “esmagou” os judeus que frequentavam a Sinagoga de Elvas, hoje chamada Casa da História Judaica, depois de ter sido açougue, armazém e local de estacionamento de carros do lixo. O que me aconteceu neste espaço foi que, exactamente como em relação aos anteriormente citados, não me foi possível deixar de ver a sua antiga e original função. Neste caso, felizmente, pois nunca durante o tempo que ali permaneci consegui imaginar o belíssimo espaço como açougue, foi como se a força simbólica da sua origem não permitisse que o que se passou ali a seguir se agarrasse às paredes, como se estas se tivessem conservado cegas para a carnificina e antiaderentes ao horror. Para onde quer que olhasse ou apurasse o ouvido, as paredes apenas me devolviam o eco dos salmos e do shofar.

Este espaço histórico, documental e religioso não deixa de ser, também, um espaço estético. Para isso não necessita de obras de arte. Ele é a obra de arte. Amplidão e beleza rodeiam-nos generosamente.

Pode ser visitado na Rua dos Açougues, em plena Judiaria. Esta casa repleta de luz precisa da sua visita para testemunhar o que ela, deliberadamente, quis esquecer. Para que não volte a acontecer.

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Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.