A menina dá-me a honra desta dança?

Paula Freire, opinião
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Assim falou ele com os sapatos cinzentos de pó e os cabelos dormentes a estremecerem-lhe em desalinhos e nós.

E os olhos azuis… Aquele azul de céu que parece feliz!

A barba rara aqui e ali, a tocar-lhe a boca por baixo do nariz.

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A flor amarela ao peito com aroma de amor-perfeito.

E ela toda vestida de novo, o cravo esquecido no cabelo, fugiu do calor a corar sem saber se dizia sim ou se o fazia esperar.

A menina dá-me a honra desta dançaÉ que a boca falava que não. Mas os olhos azuis, os dele, já lhe faziam morada no coração.

A Rosa formosa, de jeito catita, lá aceitou a dança bonita daquele serão.

Tremia, risonha e alegre, com cautela no pôr do pé, não fosse o decote pequeno resvalar, rendido, aos olhos do Zé.

Tinha estrelas o adro da igreja, branquinha, a brilharem-lhes nos sorrisos cor de fé!

E assim parece que as histórias de uma vida, um dia, foram escritas mesmo antes do mundo ser criança.

Porque, cinquenta anos depois daquelas palavras ditas, o Zé ainda murmura cheio de orgulho, aos ouvidos da Rosa:

“A menina dá-me a honra desta dança?”.


A articulista actua como Colaboradora do Portal Elvasnews e o texto acima expressa somente o ponto de vista da autora, sendo o conteúdo de sua total responsabilidade.

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Paula Freire
Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside actualmente em Vila Nova de Gaia. Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas das Relações Humanas e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada. Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias. O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora de imagens de capa de obras poéticas lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021. Nos últimos anos, descobriu-se também no seu ‘amor’ pela arte da fotografia onde aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.