A Minha Aldeia de Santa Eulália em movimento

Opinião - Graça Amiguinho
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Como uma filha que não esquece as suas origens, sigo, atentamente, tudo o que vai acontecendo no lindo e pacífico lugar onde nasci, cresci e vivi os mais lindos e puros sonhos da minha vida.

Refiro-me a sonhos, porque a vida é feita de sonhos e eu sonhei muito, talvez desde muito cedo, quando comecei a aprender a ler e já dizia que queria aprender para poder escrever as cartas que as minhas tias enviavam à minha mãe, quando estava num monte, longe, em Alter do Chão, e, porque nunca tinham andado na escola, viam-se na necessidade de pedir a uma vizinha, nossa amiga, a Maria Violante Janarra Patrão, que escrevesse e lesse o que a minha mãe também ia contando, nas cartas que nos enviava.

Depois sonhei, sonhei com os sonhos da minha mãe, de ter uma vida diferente da que ela tinha e, só estudando, o poderia conseguir. Grande foi o sonho e maior foi a luta para o realizarmos. Mas o destino foi permitindo que surgissem os meios para que se pudesse tornar uma realidade.

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Sonhei, sonhei amar, amar para sempre e sempre, a pessoa que aprendi a amar e a respeitar!

Mas também sonhei, um dia poder voltar ao meu cantinho, ao meu lar, ao calor abrasador dos verões da minha Aldeia, às festas e romarias, à feira do 10 de junho e ao S. Mateus, aos bailes da Sociedade, aos cinemas na Praça de Touros, às touradas, às procissões de pendões, enfim, a tudo o que vivi e não esqueci, por ser tão puro e belo.

Esse sonho ficará adiado para outra vida, se a puder viver. Mas nada me impede de seguir atentamente, e com o maior interesse, tudo o que se passa nessa linda Flor do Alto Alentejo, que comigo caminha dia e noite!

Uma Aldeia que prima pelo asseio, pelo cuidado de ter ruas sem lixos, casas caiadas com frequência, chaminés mais alvas que a cal, mulheres que sempre se esmeraram nas limpezas das suas roupas, quando não tinham outro modo de o fazer e se deslocavam, com trouxas à cabeça, até à ribeira de Caia e depois, já no meu tempo, quando o Tanque foi construído, no século XX, regalarem-se de lavar em águas limpas, em grandes pias, protegidas do sol e do frio, estenderem no grande relvado, as peças que precisavam corar para ficarem mais descasqueadas e as poderem depois secar, ao vento e ao sol, no grande estendedouro.

Uma Aldeia que, apesar da grande diminuição de população residente, em relação ao século passado, porque muitos tiveram que lhe dizer “Adeus” e partir para outras regiões do país, como eu, e muitos da minha geração, ou para o estrangeiro, à procura de melhores vidas, continua interessada em preservar o que de melhor nos legaram os nossos antepassados e dar-lhe vida, criar novas formas de atrair as populações vizinhas, valorizando o nosso Património material e imaterial.

Porque a Tradição das Touradas se mantém e ainda não foi oficialmente proibida, embora hoje, todos sintamos que alguma coisa poderia mudar, em virtude da sensibilização que nos vai dominando, com o desejo de protegermos todos os animais, quer sejam cães, gatos, e, neste caso, os touros, como Santa Eulália tem uma das Praças de Touros mais antigas da região, a nova Junta de Freguesia, presidida pela Dra. Ana Sofia Alves, acompanhada por outras mulheres dinâmicas e amigas da terra, como a minha prima Helena Mourato, tudo estão fazendo e com muito entusiasmo, para recuperarem o brilhante espetáculo da Tourada à Portuguesa.

Praça-de-Touros-de-Santa-EuláliaE assim aconteceu, este mês, na reabertura solene da Praça de Touros de Santa Eulália. Uma forte adesão de populações vindas dos mais diversos lugares e, certamente, da vizinha Espanha, onde esta Tradição se mantém, também.

Mas, mais há a realçar nesta linda e silenciosa Aldeia, onde o tempo parece parar.

A Sociedade Recreativa e Desportiva de Santa Eulália voltou a abrir as portas para comemorar os seus 102 anos de existência. Grandes ligações afetivas me unem a essa Sociedade.

Sociedade-Recreativa-e-Desportiva-de-Santa-Eulália-comemora-102-anosA primeira, é o ano da sua fundação, o mesmo em que os meus Pais nasceram e da qual se tornaram sócios, na juventude. Era nesse belo espaço da minha Aldeia que frequentava os bailaricos e “matinés”, ao som de música gravada ou ao toque da concertina do sr. Xico dos Passarinhos ou de um grupo de dois irmãos de Elvas.

Doces recordações do meu tempo de rapariga!

Em 2015, foi nesta Sociedade que apresentei o meu livro de poesia “ O MEU SENTIR”, nessa altura, através da generosidade da minha prima Maria Teresa Nepomuceno, que pertencia ao Grupo de Cantares de Santa Eulália, estando a Direção entregue a um Aldeano que também não esqueceu a sua terra, o sr. Marcelino Charréu Patrão, que aceitou a minha proposta. Pelo que me é dado saber, voltou a gerir os destinos desta Associação e desejo que seja por longos anos!

Atualmente, há noites de música, animadas por um filho de Santa Eulália, o músico Hélio Carlos, no Parque Infantil, onde agora funciona uma bar dirigido por outro Aldeano que sabe conviver com a juventude, “O Leme”, da família Palancha.

O-Leme-Parque Sta EuláliaHá uns anos, escrevi assim, neste poema dedicado às Moças da minha Santa Eulália:

SANTA EULÁLIA, SANTA EULÁLIA, TENS TÃO LINDAS RAPARIGAS, QUE ENFEITIÇAM OS RAPAZES COM SUAS LINDAS CANTIGAS!

AS MOÇAS DA MINHA ALDEIA USAVAM SAIA RODADA, PUNHAM O SEU AVENTAL E NÃO QUERIAM MAIS NADA!

SE QUERES NAMORADA, ALEGRE E BONITA,VEM A SANTA EULÁLIA! BEBE A NOSSA ÁGUA, PORQUE QUEM A BEBE, PR´A SEMPRE CÁ FICA!

DEBAIXO DO SOL ARDENTE, LENÇO LHES TAPAVA O ROSTO, CHAPÉU ERA BOM ABRIGO, USADO ATÉ AO SOL-POSTO!

TODOS BEBIAM DO COXO E SEM NINGUÉM RECLAMAR, NEM LEVANTAVAM O ROSTO, EM TÃO DURO TRABALHAR!

SE QUERES NAMORADA, ALEGRE E BONITA, VEM A SANTA EULÁLIA! BEBE A NOSSA ÁGUA, PORQUE QUEM A BEBE, PR´A SEMPRE CÁ FICA!

Amo a terra que me viu nascer, onde estão as minhas raízes!


A articulista actua como Colaboradora do Portal Elvasnews e o texto acima expressa somente o ponto de vista da autora, sendo o conteúdo de sua total responsabilidade.