Trajes-de-Portugal---O-luto _ Museu de Arte Popular
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Opinião de Graça AmiguinhoGuardo na minha memória a imagem da minha Mãe e da minha Sogra, sempre vestidas de negro.

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A minha Mãe nunca mais usou outra cor, senão o preto, desde o dia em que faleceu o meu irmão mais novo, com 14 anos.

Foi um choque emocional, tremendo, e uma perca difícil de aceitar, pois era ainda uma criança e teria muito mais para viver.

A minha Sogra, conheci-a sempre de negro, pois a filha que perdera, morrera, seria eu uma criancinha. Nem o meu querido esposo chegou a conhecer bem a irmã.

A Mulher alentejana carregava o peso do seu desgosto, usando sempre, lenço preto na cabeça.

O mesmo acontecia com a viuvez.

Porém, os homens sempre ficaram mais libertos de tais hábitos, hábitos que penso terem as suas raízes em tempos passados.

“A origem do costume ocidental de vestir de negro por ocasião de uma morte é ancestral: já os antigos egípcios usavam esta cor com esse significado. Dos egípcios, a tradição passou para os romanos, que vestiam uma toga preta, sem ornamentos, nessas circunstâncias. A tradição espalhou-se pelos quatro cantos do Império Romano e foi adoptada pela Igreja Católica. No entanto, o branco e o roxo também são identificados com o luto na nossa civilização”

Todos sabemos como a Mulher árabe, ainda hoje, usa lenço na cabeça e a roupa é predominantemente negra.

Com o evoluir dos tempos, muitos hábitos vão mudando e com eles as atitudes comportamentais do ser humano.

Mas a verdade é que as tradições, quer se queira, quer não, marcam profundamente o nosso existir e, embora não sejamos coagidos a mantê-las, psicologicamente, ficamos amarrados a elas, continuando a fazer o que os nossos antepassados consideravam ser certo.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho
“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo, a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho

Já passei por situações diversas de perca de familiares que tiveram um papel muito importante na minha vida. Quando se falava de luto, eu sempre fui muito determinada e, por norma, apenas usava o negro até à missa de sétimo dia. Depois desse momento, passava a usar cores mais suaves e discretas, mas não o preto carregado.

E porque agia eu assim?

Porque a imagem que os meus filhos tinham das suas avós era marcada por tristeza e a cor negra estava associada a ela.

Eu não queria ensombrar a vida dos meus filhos e, como tal, depois de um mês da ocorrência do óbito, deixava de usar com frequência o preto, passando a vestir normalmente.

Hoje, vivo uma situação em que, espiritualmente, me sinto bem de negro, embora eu saiba que o meu amado esposo não queria que eu assim me vestisse.

Não o faço para agradar a ninguém ou para que ninguém ouse censurar-me.

Faço-o porque, interiormente, sinto a amargura que em mim mora e não desejo desprender-me dela, embora não me considere masoquista ou dona de sentimentos doentios.

Em tudo isto há contradições inexplicáveis.

Quando festejamos grandes acontecimentos, a cor mais escolhida para essas ocasiões é, geralmente, o preto, porque é elegante, distinto, charmoso…

Penso, sinceramente, que não é o traje que tem esses atributos, são os nossos sentimentos que lho imprimem.

O nosso corpo tem comportamentos diferentes, conforme o nosso estado de espírito, que demonstram o que nos vai na alma, através do nosso olhar, do nosso sorriso, das nossas expressões faciais.

É tão forte esta associação da cor preta com a alegria e a tristeza, que será difícil encontrar uma explicação que a justifique.

Presos ou não às tradições ancestrais, cada um tem liberdade para escolher o que mais lhe agrada e não o fazer por preconceito ou receio de julgamento por parte da sociedade.

Quantas vezes eu aconselhei amigas, dizendo-lhes a vulgar frase que se ouve tantas vezes:

– Não é o luto que leva ninguém ao céu…

Virá alguém dar-me o mesmo conselho?

Hoje, compreendo melhor, o que até agora não compreendia.