Floresta
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Opinião de Risoleta C Pinto PedroHá uns anos, encontrando-me num pequeno bosque a meio da Serra d’Ossa, com pinheiros e outras árvores, comecei a olhar para o imenso caos que é o chão, feito de terra, folhas, pedras, agulhas de pinheiro e sei lá que mais, e não sei se sob, ou se entre a confusa composição que se me apresentava, os meus olhos começaram a descortinar um padrão. Foi muito surpreendente verificar que a desordem é apenas aparente, que um olhar diferente consegue penetrar para lá do que à primeira vista se apresenta e ver uma ordem, uma regularidade.

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Isto tem-me acontecido desde criança com vários tipos de superfícies, mas este caso foi particularmente chocante e inesquecível.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Transferindo este fenómeno visual, se assim lhe quisermos chamar, para a realidade das nossas vidas, meditando numa possível correspondência e evocando momentos em que os episódios parecem, apesar de não terem nada a ver uns com os outros, fazer uma coerência surpreendente, como se estivéssemos perante um puzzle escondido a que apenas temos, de vez em quando, acesso a algumas peças e elas formam um sub-conjunto que nos diz alguma coisa, mas não tudo, sou tentada a crer que tal como na matéria informe que pisamos existe uma ordem, também nas nossas vidas por vezes caóticas e incompreensíveis, existe um padrão inferior que talvez corresponda a um padrão superior por enquanto fora do nosso alcance. Não falo em desígnio ou destino, visualizo mais um puzzle ele próprio em construção em que nós somos o jogador, o construtor, o destruidor e o reconstrutor.

Isto parece-me ter a ver com o que escreve Simão Bem Jochai, rabi do período pós 135 da era cristã: «nenhum facto do mundo está isolado do seu contexto universal. Nada cá em baixo tem um fim em si mesmo». (apud “Prefácio” in: A Cabala e a Tradição Judaica, René de Tryon-Montalembert e Kurt Hruby, Ed. 70, Colecção Esfinge, Lisboa, 1979.

E no entanto é «cá em baixo» que nos é fornecida a matéria-prima com que nos modelamos e a que é preciso estarmos atentos. Olhando o seu caos e sabendo que não é tudo.

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.