Amendoas
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Opinião de Risoleta C Pinto PedroAs festas criam uma ligação entre a comunidade humana e o universo transcendente a que alguns chamam o reino de Deus, que talvez seja representado aqui, pela Natureza, embaixadora do alto.

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Os chamados dias santos e as celebrações rituais anuais guardam uma dimensão maior que aquilo que é visível, mesmo para os ateus, porque marcam um ritmo, são uma espécie de metrónomo regular e sábio acima de todas as contingências.

A Natureza é o altar onde se celebram estes rituais, como o renascimento e a impossível morte do sol e sua ressurreição, a festa das cores e dos sentidos que é a espiga, a loucura quase insuportavelmente eufórica que é o carnaval quando se incensa o excesso, e outros. Como aquele que acabámos de atravessar, o recolhimento da Quaresma que este ano, para os humanos, se prolonga, sabe-se lá porquê; e a Páscoa, esse ovo alquímico revestido de açúcar que este ano saboreámos em silêncio e solidão. A ver se desta vez resulta.

Quando eu era pequena, costumávamos passar a Páscoa no Alentejo, em S. Vicente, terra dos meus pais e dos meus avós e onde eu também nasci. Estas idas à planície são das memórias mais felizes que guardo da infância, mesmo aquela que vou contar, perceberão porquê.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Eu tinha recebido um saquinho com amêndoas decorativas, daquelas em formatos de bebés e frutos, com recheios doces, e levara o saquinho para a cama. Não consegui parar e, se me recordo, ia dormindo e acordando e comendo amêndoas até… se acabarem. Foi a noite mais doce da minha vida, mas o dia seguinte foi bem amargo. Lembro-me que fomos convidados para jantar em casa dos tios e madrinha da minha mãe, a tia Brígida, mãe do meu primo João Branco, e não pude aproveitar nenhuma das delícias com que nos presentearam, porque a agonia no meu corpo estava mais no passado da Quaresma, do que no presente da Páscoa.

É assim, mais ou menos, para usar uma metáfora, que a humanidade tem vivido a Páscoa. Enfrascando-se num tipo de prazer que não chega à alma e faz mal ao corpo. Este ano estamos a ter uma oportunidade à força. É assim que nos chegam as oportunidades, quando as desbaratámos antes. Chega um momento em que se nos impõem de forma nem sempre agradável. Porque a vida não desiste de nós.

As circunstâncias presentes, em que o alto dirigente da igreja católica celebrou o ritual pascal perante uma praça vazia, mas provavelmente perante mais olhos do que nunca, assim marcando a dignidade do ritmo e do rito, vêm mostrar que as pestes não derrubam as festas, porque a verdadeira festa é interior e não há Covid que a alcance.

A aprendizagem, hoje, é de que andávamos a viver apenas o lado externo da festa. Que a Ressurreição seja, hoje, um estado de dentro, e que a experiência, por indelével, permaneça.