Início Opinião Graça Amiguinho A Páscoa em Cinfães, Douro Litoral

A Páscoa em Cinfães, Douro Litoral

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Depois de toda a azáfama na programação de férias, compras para a comemoração da festa da Páscoa na qual é tradição servir o cordeiro assado no forno com batatinhas bem aloiradas, um arroz tostadinho e doces variados, os estudantes estão em casa para recuperação de energias a fim de enfrentarem o último período letivo e se prepararem para as provas finais.

Em todo o mundo Cristão foram abundantes as cerimonias que evocam a primeira eucaristia, a subida ao Calvário e a morte e crucifixação de Jesus Cristo.

De Norte a Sul de Portugal houve grandes vias-sacras com representações cénicas dignas de nota, assim como na vizinha Espanha onde a Igreja Católica tem uma implementação muito grande.

Entretanto, os conflitos continuam, as guerras declaradas ou camufladas são uma realidade em todo o lugar do planeta. Os homens ainda não entenderam o amor universal.

Dentro da própria Igreja Católica também não há a paz desejada por Cristo porque os homens continuam não sabendo bem qual a sua missão, a Verdade da Fé e acabam divididos entre si por não comungarem das mesmas opiniões e não quererem evoluir, não desmistificando conceitos que nos tempos modernos não têm razão de existir.

Muitas vezes penso que estamos muito longe de alcançar a evangelização preconizada pelo Papa Francisco porque quem a deseja fazer encontra obstáculos difíceis de ultrapassar por motivos que o comum do católico desconhece.

Mas voltemos a este tempo de pausa, princípio de primavera com temperaturas desagradáveis, embora nos conformemos com a chuva que tão precisa era em todo o nosso país.

Durante toda a minha existência apenas tinha visto neve uma vez, há quarenta e sete anos,  quando vim do Alentejo e, por razões alheias à minha vontade, tive que ir viver para Sanfins, Paços de Ferreira. Houve nesse ano um grande nevão e eu fiquei maravilhada ao ver as árvores todas branquinhas. É um espetáculo de uma beleza incomparável pois acontece de um momento para o outro.

Este ano, pela terceira vez, fui passar o dia de Páscoa  em Ferreira, Cinfães, na casa de uns amigos de longa data, daqueles amigos que ficam sempre no nosso coração porque nós também temos lugar no coração deles.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho
“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo, a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho

Só para melhor definir essa amizade, direi que os dois filhos desse casal foram meus alunos, ambos só na 1ª classe. Não continuaram comigo porque ou mudei de estabelecimento ou assumi a direção da escola. Mas não foi preciso muito mais tempo para nos conhecermos no mais fundo do nosso coração e termos ficado para sempre com uma empatia que muito prezo.

No Norte de Portugal há costumes religiosos desconhecidos no Sul, o que marca a Tradição e a diferença de culturas.

Após a missa do Domingo de Páscoa saem grupos de rapazes e raparigas encarregados de levar por toda a freguesia a boa nova da Ressurreição de Jesus Cristo, devidamente fardados com opas, o hissope para aspergir a água benta, a campainha e a Cruz do Senhor enfeitada de flores.

Conforme a área dos lugares assim é o número de grupos que percorrem os montes e vales, a pé, por caminhos empedrados ou de terra batida, para darem a Cruz a beijar em todas as casas que tenham verdes espalhados no chão, à porta, sinal de que são Católicos.

Assim, a família reunida à entrada da casa espera o «compasso» que entra, e diz:

– Aleluia, Aleluia, Cristo Ressuscitou, Aleluia!

De seguida, asperge todos com a água benta e dá a Cruz a beijar ao dono da casa que depois a dá a beijar à família e amigos presentes.

Se desejarem comer algo, é-lhes oferecido o que há na mesa: pão de ló, regueifa doce, salpicão, vinho do Porto, amêndoas e uma pequena lembrança em dinheiro para a Igreja.

E lá vão pelos campos fora pois as casas estão espalhadas por todo o lado, entre altos e baixos, entre a montanha e o vale.

Mas porque falei da neve?

Porque este ano os meus amigos quiseram levar-nos até ao cume da serra de Montemuro, a uma altitude de 1382 metros, um lugar de onde podemos admirar uma paisagem de uma imponência e beleza extraordinárias.

Serra coberta de neve, vento agreste, temperatura baixa com uma panorâmica sobre Cinfães o rio Douro e arredores, lindíssima.

É nessa serra que nasce o rio Bestança, um dos rios mais limpo da Europa que desagua no rio Douro.

Paisagem onde os rebanhos pastoreiam na primavera por entre castros seculares e os romanos ali fizeram morada, sendo a Igreja de S. Cristóvão de Nogueira testemunho dessa época

Também  D. Afonso Henriques, 1º rei de Portugal, na sua juventude, foi ali educado por D. Egas Moniz e por tanto gostar daquele território deixou parte dos seus bens à Herdade Real de Tarouquela na freguesia de Cinfães

Porém, os encantos da montanha não me fazem esquecer, de forma alguma, a tranquilidade e beleza da minha planície alentejana porque a nossa terra tem sempre algo de muito especial que não sabemos explicar.

Lembro a Páscoa da minha Aldeia e o perfume inigualável da flor do carapeto com que enfeitávamos as nossas casas, a erva doce e a canela usadas nos nossos biscoitos e dobradiças, o ensopado de borrego, único e de sabor incomparável, enfim, coisas que guardo na minha memória e no meu coração.

A todos desejo a continuação de Boas Festas e que, dentro dos vossos lares, reine a paz e o amor que Cristo Ressuscitado veio ao mundo ensinar!