Início Opinião Graça Amiguinho A traição do PCP e a reprovação da eutanásia

A traição do PCP e a reprovação da eutanásia

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Aqui, do meu cantinho, vejo o mundo passar à minha frente e, muitas vezes, fico a pensar nas incoerências e oportunismos de que ele se reveste.

Em mais de quarenta anos de democracia, o PCP nunca conseguiu convencer o eleitorado daquilo que apregoa aos sete ventos.

Diz-se o grande defensor dos trabalhadores mas pouco tem contribuído para que as condições de vida tenham as prometidas melhoras.

Se hoje faz parte da tão falada «geringonça», não lhe assiste o direito de fazer chantagem e, de uma forma contrária aos ideais que difunde, se colocar ao lado dos que nunca apoiaram esta solução governativa, parecendo, até, ter tido uma súbita conversão ao catolicismo, que abomina.

Por norma, não falo do que não sei, mas depois da votação de hoje, na Assembleia da República, sobre a despenalização da eutanásia, que eu não penso sequer vir a usar, se morrer com saúde, deduzi, sem grande esforço, que o PCP desviou o seu voto para derrotar a esquerda na aprovação dos projetos em discussão, e, de uma forma bem expressiva, o PS, para lhe fazer sentir que sem ele o próximo OE pode ser rejeitado.

Valerá tudo em política? Afinal, quem defendem os deputados da AR?

Os seus interesses ou os interesses do povo que os elegeu?

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho
“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo, a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho

Compreendo que a direita se agarre a conceitos de ética religiosa para defender os seus negócios com a infelicidade dos doentes, sacando dinheiros públicos sem condições para os tratar devidamente ou aliviar dos sofrimentos irremediáveis, muitos com doenças em fase terminal, e seja contra a possibilidade da escolha de alguns quererem evitar, não só o seu próprio sofrimento como o das suas famílias que, no final de uma doença prolongada, ficam exaustas e ninguém lhes consegue tirar a sensação de frustração por não conseguirem dar, aos que amam e vêem em desespero, um fim com alguma dignidade.

Já o disse muitas vezes, e repito, que não condeno quem quer ter a liberdade de decidir onde, quando e como terminar esta passagem pela vida, desde que as condições de sobrevivência sejam poucas e tenham um fim de degradação física marcado pela própria natureza.

Com a não aprovação da legislação para despenalização da eutanásia, os mais pobres ficarão impossibilitados de recorrer às clínicas, no estrangeiro, como o fazem os que têm meios financeiros.

Afinal, negar a existência do problema e não querer encará-lo, é negar a liberdade de minorias. É certo que esta prática, segundo penso, não é ainda muito comum entre nós.

Ouvi os debates e fiquei consciente das exigências impostas a quem quisesse recorrer a esse serviço.

Se houve quem me esclarecesse, houve também muita utopia e conversa sem fundamento e demagógica, cujo intuito é criar problemas de consciência e medo do castigo divino.

Já acompanhei familiares com doenças gravíssimas e sei avaliar o sofrimento.

Ninguém, no seu perfeito juízo, deseja morrer.

Mas se a pessoa está desenganada da possível cura e lhe é dito o fim que o espera, não será um ato de coragem e amor à família, decidir acabar com o seu drama e dos que o rodeiam, mesmo sendo pessoa de convicções religiosas, uma vez que acreditamos na vida para além da morte?

É uma questão muito delicada e merece toda a nossa atenção sem complexos nem puritanismos.

Não será maior crime alguém ser abandonado num hospital ou até num lar e sentir a solidão e falta de afetos?

Não podemos fechar-nos no nosso comodismo e pensar que os problemas não são nossos e, como tal, nada temos a fazer.

O bem da sociedade, em geral, será consequência dos nossos atos, das nossas escolhas. O que hoje nos parece inacreditável, amanhã torna-se compreensível e aceitável.

Viver e viver em paz, só é possível quando soubermos respeitar a liberdade do nosso semelhante.

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