Biblioteca Municipal Dra Elsa Grilo, Elvas
Biblioteca Municipal Dra Elsa Grilo, Elvas
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Na verdade, uma biblioteca existe onde houver um leitor, e modernamente elas têm-se ampliado a jardins, praias e até à rua, onde pequenas estantes informais podem disponibilizar livros para quem quiser lê-los. Há bibliotecas magníficas em monumentos, como a de Mafra, situada no palácio e guardada por morcegos, que procedem ecologicamente à protecção dos livros contra os insectos, outras quase anónimas, mas de uma importância extremamente relevante, como a Biblioteca da Sociedade de Geografia, apenas para referir algumas, pois poderia continuar por linhas e linhas.

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O filólogo e filósofo Agostinho da Silva defendia que as bibliotecas escolares deviam estar abertas toda a noite a fim de permitir que quem quisesse ou necessitasse de fazer uso delas a horas inusitadas, pudesse fazê-lo. Numa vila onde reside a minha mãe, o bibliotecário levou os livros até às empresas, onde criou pólos da Biblioteca Central.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Quando eu era pequena, a minha biblioteca era a carrinha da Gulbenkian, que nessa altura, e ainda hoje, correspondia à minha imagem de Paraíso.

Pelo país fora, e ainda há pouco aqui referi um caso, a propósito da Escola do Redondo, escolas transformam-se em bibliotecas ou em Centros Culturais. Em Sesimbra, onde houve um hospital medieval, já existiu, no século XX, uma biblioteca, transformados hoje, um e outra, em museu. Curiosamente, o edifício incorpora, também, uma farmácia. Mas não são as bibliotecas eficazes farmácias do espírito?

Vem esta minha rememoração a propósito da Biblioteca Municipal de Elvas, que já foi Colégio Jesuíta, com construção iniciada em meados e concluída em finais do século XVII, no esplendor do barroco. A seguir foi Museu e Biblioteca, mas também Escola Primária, Colégio, Escola Industrial e Liceu. Segundo folheto de informação cultural do município sobre a mesma. Um percurso vertiginoso. Que não ficou por aqui, pois mesmo depois da sua inauguração como Biblioteca Pública em finais do século XIX, oito anos antes do nascimento de Fernando Pessoa, a 10 de Junho, pelo tricentenário da morte de Camões, recolhendo e dando porto seguro às livrarias dos conventos locais e colecções particulares, ainda assim conviveu, no mesmo espaço, com outra instituição, o Museu Arqueológico e Etnológico até 2005, quando se iniciaram obras que lhe permitiram a sua entrada na Rede Nacional de Bibliotecas Públicas, reabrindo portas em 2007.

Sala Públia Hortênsia de Castro, Biblioteca de Elvas
Sala Públia Hortênsia de Castro, Biblioteca de Elvas

Estive lá recentemente, por altura do Verão a apresentar um livro do Elvense José Pais de Carvalho, mas tecnicamente a Biblioteca estava fechada, apenas abrindo gentilmente para o evento, pelo que não me foi possível visitá-la com detalhe, principalmente a Sala Públia Hortênsia, que me interessa particularmente. Tenho uma visita guiada prometida e combinada, apenas não está agendada, por dependente da disponibilidade de ambas as partes, a minha, que vivo longe, e assoberbada com tarefas familiares e de escrita, e a da responsável. Mas vai concretizar-se, por isso aqui deixo a promessa de voltar a falar do que então verei e experimentarei. Algo de emocionante e inesquecível, tenho a certeza. Pois sei que lá irei encontrar, para além do património visível, móvel e imóvel, os sussurros e os sonhos de todos os que por lá passaram desde finais do século XVII. Uma imensa biblioteca oculta, feita de memórias, vivências, dores e alegrias, indecisões e vontades, que depois vos contarei, no segredo desta página.

Apenas como curiosidade, de que acabo de ter conhecimento, escrevo esta crónica no mesmo dia em que, em 2002, é inaugurada a nova Biblioteca de Alexandria. O nascimento ou renascimento de uma biblioteca é sempre um acontecimento feliz para toda a humanidade. Num tempo em que vozes, por causa do desenvolvimento tecnológico, receiam o seu desaparecimento. O que é impossível de acontecer, pois isso corresponderia ao desaparecimento da humanidade. Que não é para já. Contudo, também por isso quero tanto ir visitar detalhadamente a Biblioteca Municipal de Elvas. Pelo sim pelo não. Há que acarinhar as espécies em risco de extinção.