Casa Museu José Régio
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Opinião de Risoleta C Pinto PedroEm A Literatura de José Régio, escreve Álvaro Ribeiro:

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«Conservo, com zelo de arquivista, todas as cartas que José Régio me ia escrevendo de Portalegre para Lisboa, em sinal expansivo dos dons da sua inteligência e do seu coração. Tais cartas aparecem escritas com letra perfeitamente legível, sinal efectivo de boa educação em quem se esforça por comunicar, além de exprimir, e não despreza o destinatário enviando-lhe a apressada cacografia de quem desdenha o entendimento alheio.»

Lendo esta passagem, após a visita à Casa Museu José Régio em Portalegre, tive vontade de saber que lhe teria Régio confidenciado acerca de Portalegre, da sua “casa” e da progressiva “ampliação” e recheio. Lembrei-me, então, que tinha a edição da Casa da Moeda da Correspondência com Álvaro Ribeiro, entre 28 e 68, que apenas folheara. Tinha. Tenho. Agora iria experimentar outro sabor. Assim foi. Mas afinal a informação relativa à casa é pouca e já se situa nos últimos anos de Portalegre, tendo sobretudo a ver com o cuidado que pôs em deixar o destino da casa, com seu conteúdo, salvaguardado para o futuro.

Saberá o leitor, que sendo Vila do Conde a sua terra, aí existe também uma Casa Museu (que há-de ser alvo de peregrinação em breve, pelo menos assim espero), mas foi em Portalegre que fez a carreira profissional como professor e em grande parte, também, como escritor. Foi para Portalegre com 27 anos (nasceu em 1901) e aí permaneceu até 1966, depois de se ter aposentado em 62. Toda uma carreira no Alentejo, mais precisamente no Liceu Nacional de Portalegre.

O que senti na Casa Museu assumida e mantida pela Câmara Municipal, foi um sentimento de extrema generosidade do poeta para com os que lhe seriam futuros, para connosco, por ter reunido, assim salvando da destruição, o que iria literalmente acontecer a muitas peças que adquiriu, um precioso legado cultural alentejano e nacional.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Talvez alguns não saibam que ao chegar a Portalegre foi um quarto de pensão que lhe serviu de abrigo. À medida que a capacidade económica ia crescendo, foi ocupando outros quartos, até que toda a pensão ficou por sua conta. Nas sucessivas dependências ocupadas, as peças de arte e antiguidades, com destaque para os crucifixos, foram-lhe habitando a casa. O restauro não foi descurado, executado por artífices contratados. A colecção foi crescendo, da arte sacra à arte popular. Mobiliário, objectos do quotidiano, utensílios dos pastores, das cozinhas, pratos em barro pintado, Santo Antónios, pintura, nomeadamente do irmão, o pintor Júlio, manuscritos, como o da “Toada de Portalegre”… e a descrição prosseguiria longa. Pela janela, a paisagem que os seus olhos quotidianamente viram. É uma experiência intensa e comovente, a casa está viva e ele ocupa-a integralmente, através dos objectos que recolheu, sobretudo sabendo nós a forma como aconteceu, totalmente distinta de um mero coleccionismo, pelo empenho que pôs na aquisição, manutenção e sinal para o futuro.

Também comovente, a leitura da troca de correspondência entre estes dois persistentes amigos e mútuos admiradores, apesar da manifestação das divergências mantendo o respeito pelo outro. Numa carta de Fevereiro de 57, escreve Álvaro Ribeiro:

«Na tertúlia em que por vezes convivo, meu caro José Régio, falamos muitas vezes na obsessão do crucifixo e do crucificado, enfim, do passado, que perturba e altera a mais significativa obra literária do nosso tempo. Cristo já ressuscitou, e só o clericalismo reaccionário persiste em prendê-lo à cruz.»

Responde-lhe Régio em Abril, tão humilde quanto elegantemente, a epistolografia prossegue sempre em tom admirativo, crítico e confidencial, e aqui temos muito que aprender com estes dois acerca do nobre exercício da divergência que se eleva sobre o estilo de taberna que tantas vezes se vê, usado até por quem habita em palácios.

A 13 de Dezembro de 1964 refere Régio «uma transacção que fiz com a Câmara de Portalegre» e a urgência de concluir um inventário do recheio da casa. Dois anos antes de regressar à sua terra, é esta transacção que permitirá à Câmara vir a transformar a casa, segundo a vontade de Régio, em Casa Museu.

Voltou a tornar-se um local público, como era antes. Até Régio, paulatinamente, a ir transformando na sua casa, altar e museu particular. Ideal para visitar em tempo de pandemia. Talvez o leitor a venha a sentir como sua casa. Basta imaginar que habita um dos quartos e olha a magnífica paisagem exterior. Até a voz da guia o chamar à realidade e ficar cheio de vontade de ler ou reler a obra do poeta e, quem sabe, também a do filósofo, o seu especialíssimo hermeneuta, amigo e correspondente.