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Opinião de Graça AmiguinhoPerante as notícias que frequentemente são divulgadas nos meios de comunicação social, sou impelida a pensar no que se passava em Portugal, no séc XX, durante o qual fui aluna e professora, tendo vivenciado muitas situações terríveis, comparadas com o que hoje faz manchete nos jornais e provoca manifestações de repúdio, com toda a razão.

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Vivendo em Democracia, toda a repressão física ou psicológica já deveria ter sido banida neste 45 anos, pois ela estava associada, no passado, ao Fascismo que se impunha pela força e não pelas convicções e o respeito pelos mais fracos.

Contudo, há comportamentos e certas atitudes que estão também associadas ao temperamento das pessoas, à educação que têm na família e aos princípios morais defendidos.

Lembro-me que frequentei a 1ª classe, em Alter do Chão, com uma professora dócil e não tenho a mínima lembrança de alguma vez ter visto um ato de violência na sala de aula ou fora dela.

Ao regressar a Santa Eulália, o ambiente na sala de aula, era terrível.

Se a criança era muito boa aluna, a professora não tinha razão para lhe tocar, se fosse uma discípula com dificuldades, era o bombo da professora.

Vi muitas crianças, minhas companheiras, serem agredidas com réguas, ponteiros feitos de canas com nós, que serviam, não para apontar no quadro, mas para bater nas cabeças indefesas, deixando nelas hematomas.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho
“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo, a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho

Os castigos de régua eram dobrados, porque, a desumana professora, exigia que a criança pusesse a mão sobre carteira, palma virada para cima, para que a pancada fosse agravada com o impacto na madeira.

Quantas vezes, vi a professora pegar na cabeça da aluna e bater com ela no quadro de lousa.

E ninguém reclamava. Todos os pais consentiam, se soubessem, ou nem chegavam a saber o que se passava dentro da sala de aula, porque as alunas eram ameaçadas, se contassem os vexames de que eram vítimas, nas mãos da professora.

Havia muitas crianças que tinham medo de ir à escola, sentiam náuseas e dor intestinais provocadas pelos nervos.

Talvez esta violência fosse uma das grandes causas do abandono escolar e analfabetismo, associada à necessidade que os pais tinham que os filhos começassem a trabalhar cedo para não passarem fome, sendo ainda crianças.

Esta era a nossa triste realidade, nos anos 40/50/60 do séc. XX.

Como já referi, as crianças que ficavam excluídas das agressões físicas, eram as inteligentes e trabalhadoras, grupo a que eu, naturalmente, pertencia.

Porém, um dia, senti na pele a dor que as minhas companheiras tantas vezes sentiam.

A professora achava-me competente para ir verificar se os deveres de casa tinham sido feitos ou não  pelas minhas colegas.

Naquele dia, as coisas não correram nada bem.

Havia duas coleguinhas que não tinham feito os trabalhos. Uma era muito minha amiga e a outra, nem por isso, não tinha grande simpatia por ela, apesar de até ser, ainda, minha familiar.

Cometi o erro de denunciar uma e omiti a falta da outra.

Porém, a acusada, sabendo que a outra também não tinha feito os deveres e só ela estava sendo severamente castigada, com uma dúzia de reguadas, não se calou e acusou a minha falta à professora.

Ai, que vergonha, a minha omissão fora descoberta. A professora parecia uma fera, a ralhar comigo.

Mas não ficou só pela represália verbal.

Pegou na régua e deu-me tantas reguadas, nas duas mãos, que ficaram todas inchadas.

Lembro-me, perfeitamente que, com 9 anos de idade, aguentei o merecido castigo sem deitar uma lágrima e em silêncio.

A professora era tão severa, quanto bonita e elegante, mas muito preocupada com o ensino.

Depois das aulas, levava-nos para sua casa para praticarmos a matemática e nos exercitarmos na resolução de problemas, pois na 3ª classe havia um exame público, constituído por prova escrita e oral.

Nunca, a minha memória esqueceu essa tarde em que mal conseguia pegar no lápis de pedra para fazer as contas na lousa.

Mas, não satisfeita com essa agressão, a senhora professora, um dia que me chamou ao quadro para fazer um problema, por qualquer razão, não correspondi à rapidez de raciocínio que ela exigia de mim, espetou-me uma das suas unhas compridas, numa orelha, que me obrigou a deixar de usar brincos com a infeção que apanhei. Os meus pais aceitaram o castigo que me fora impingido, sem nada dizerem.

Apesar destas cenas, essa professora foi propositadamente a casa dos meus pais, depois de eu ter feito o exame da 3ª classe com distinção, dizer-lhes que era imperioso eu fazer a 4ª classe, que nesse tempo não era obrigatória e continuar os estudos, conselho que os meus progenitores não esqueceram.

Imagine, querido leitor, que só aos 45 anos voltei a usar brincos enfiados na orelha, quando uma vez, uma colega de trabalho, me voltou a abrir o orifício, fechado desde criança.

Tempos que deixaram marcas mas que hoje não têm razão de existir.

Se o professor tiver a devida formação para exercer, com dignidade, a sua função educativa, sabe quais as estratégias que deve usar para conduzir os seus alunos apenas com palavras e sem uso da força.

Os professores, no negro tempo do fascismo, também se deixavam influenciar pela rudeza do sistema implementado.

Que o Estado proporcione, hoje, aos seus Professores, uma formação condigna da sua profissão e não haverá motivos para que se oiça contar que um pai agrediu o professor ou professora do seu filho em retaliação de um castigo.