Início Ciência Abelhas anti-sociais partilham perfil genético com pessoas autistas

Abelhas anti-sociais partilham perfil genético com pessoas autistas

COMPARTILHE
   Publicidade   
   Publicidade   

A maioria das abelhas está constantemente em movimento: a tomar conta da rainha e da sua descendência, a guardar a colmeia, a produzir mel, a voar em busca de pólen… No entanto, algumas abelhas “não fazem grande coisa” e tendem a isolar-se da colmeia, interagindo raramente com as restantes abelhas operárias. Num estudo recentemente publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), cientistas da Universidade do Illinois (Urbana, IL, EUA) mostraram que estas abelhas partilham um determinado perfil genético com pessoas que apresentam sintomas de doenças do espectro autista, o que pode influenciar a forma como reagem a situações de contexto social.

No estudo, com autoria do postdoc Hagai Shpigler, foram usados dois testes onde os cientistas gravaram em vídeo um grupo de abelhas e analisaram a reacção individual de cada abelha a uma situação social. Num dos testes, Shpigler introduziu uma abelha desconhecida no grupo, o que normalmente promove uma reacção instintiva nas restantes abelhas para atacar o desconhecido. No segundo teste, os cientistas introduziram no grupo uma larva rainha imatura. Larvas rainhas induzem instintos maternais e as abelhas operárias tendem a alimentar a larva. Estes testes foram aplicados a 245 grupos de abelhas provenientes de sete colónias diferentes e avaliou-se a reacção das abelhas às diferentes situações.

Embora a grande maioria das abelhas tenha reagido a pelo menos uma das situações, uma pequena percentagem das abelhas não mostrou qualquer reacção. Após análise genética de ambos os grupos, os cientistas mostraram que existe um subconjunto de genes que se encontra activo apenas no cérebro das abelhas apáticas. Ao comparar estes genes com genes envolvidos em doenças como autismo, esquizofrenia e depressão, concluiu-se que humanos e abelhas, embora distantes evolutivamente, partilham diversos genes, concretamente aqueles envolvidos no autismo.

Para Hans Hoffman, cientista da Universidade de Austin (Texas, EUA), não envolvido no estudo, este trabalho descreve como a evolução pode moldar as mesmas vias moleculares, incluindo processos tão complexos como interacções sociais, em animais tão diferentes como humanos e insectos. Os circuitos neuronais subjacentes ao comportamento social “devem ser bastante diferentes em humanos e abelhas, mas no entanto, ao nível molecular, os genes parecem actuar de forma semelhante”, o que é “impressionante”, diz o cientista.

Segundo comentários de Alan Packer, geneticista da Simons Foundation (Nova Iorque, EUA), fundação que financia a investigação em autismo e este estudo em concreto, ainda não se sabe exactamente de que forma estes genes afectam o comportamento social em abelhas ou humanos, mas a manipulação genética destas abelhas pode ajudar a elucidar os efeitos em humanos. O mesmo cientista salienta que não se está a tentar estabelecer paralelismos directos entre comportamentos humanos e de insectos. Contudo, “a abelha pode ser um modelo útil para entender a interacção destes genes”, afirma Packer, que está também interessado em saber como este mesmo conjunto de genes afecta comportamentos sociais noutros animais.

Não se sabe ainda por que razão abelhas anti-sociais são toleradas pela colmeia, embora se pense que estes indivíduos sejam considerados parte do grupo apesar do seu comportamento fora do comum, afirma Claire Rittschof, entomóloga na Universidade de Kentucky (EUA), não envolvida neste estudo. De facto a sociedade das abelhas tem este aspecto em comum com a sociedade humana, em que “se acomodam e toleram diferentes personalidades”, tal como sugere Rittschof.

Fenótipo

Característica observável resultante da expressão de um ou mais genes num organismo

Este estudo demonstra a importância da genómica comparativa para a compreensão de comportamentos sociais humanos e a continuação desta investigação em insectos sociais como as abelhas pode criar fenótipos comportamentais relevantes ao estudo de doenças humanas do foro psiquiátrico.

   Publicidade   
Artigo anteriorElvas: Detido por furto de armas de fogo em estabelecimento
Próximo artigo“Turbulências”, poesia pela pena de João Cabrita
Sara Porfírio
Sara Porfírio é Mestre em Bioquímica pela Universidade de Lisboa e doutorada em Ciências Agrárias pela Universidade de Évora. Actualmente a residir nos EUA, desenvolve investigação em Glicobiologia no Complex Carbohydrate Research Center, instituto de investigação associado à Universidade da Geórgia (EUA). O seu trabalho foca-se na análise química e estrutural de polissacáridos (polímeros de açúcares) de origem vegetal e/ou microbiana. Além da sua dedicação à profissão, procura manter-se actualizada sobre os desenvolvimentos nas restantes áreas científicas, com especial foco nas Ciências Biológicas.