Opinião - Risoleta Pinto Pedro
   Publicidade   
   Publicidade   

Todos nos recordamos de um episódio recente ocorrido no litoral alentejano, quando o governo requisitou um determinado número de apartamentos para alojar uma comunidade de trabalhadores estrangeiros em pleno surto de Covid. O assunto, complexo, gerou muita polémica, foi tratado, por vezes, com alguma ligeireza e imediatismo e sem ponderação de todos os factores, e não é sobre isso que pretendo falar, mas sobre o princípio que lhe preside e que encontrei numa das entradas do magnífico Dicionário de Victorino d’Almada. A entrada é designada como “aboletamentos” sendo aboletar definido como «distribuir os militares pelas casas da povoação, à falta de quartel em que pernoutem reunidos». Veremos como este problema há pouco ocorrido, não é novidade no Alentejo.

   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 

Existia o procedimento, por parte da autoridade administrativa, de dar uma ordem por escrito no sentido de o militar ser recebido numa casa particular destinada para seu quartel. Contudo, Elvas gozava de um estatuto especial por, como terra de fronteira, os seus habitantes estarem sempre disponíveis a pegar em armas para a defesa, e por isso estavam dispensados do dever de aboletamento. Por isso, quando em 1580 Filipe II de Castela confirmou este direito ao negociar a entrega da cidade, deu azo a que a população, assim escudada, se recusasse, em Julho desse ano, a receber a sua guarda, que se viu obrigada a instalar-se «ao redor dos muros». No ano seguinte, com a peste instalada na Península, o mesmo rei fez nova tentativa para terminar com o privilégio, fazendo entrar algumas tropas que pernoitariam na cidade. O Senado da Câmara, com dupla alegação, a do receio da peste e os foros que lhes concediam o privilégio do não, recusou-se a receber as forças militares dentro de muros. Isto gerou um conflito grave, ocorreu uma sublevação e os que a encabeçaram activamente foram desterrados da cidade, numa reacção bem musculada do poder.

Isto das pestes, em qualquer tempo, faz acender os ânimos, e o relato que aqui trouxe é apenas o início de uma sequência de episódios que se arrastaram durante séculos , pelo menos até ao século XIX, e cuja leitura aconselho, no I volume da obra acima referida. Quem não a possua, poderá sempre consultá-la na Biblioteca de Elvas, o que não deixa de ser um excelente pretexto para visitar este espaço tão especial.

Elvas - Quartéis da Corujeira
Elvas – Quartéis da Corujeira/Arquivo

Alguma diferença existe entre o episódio de há meses e estes casos de Elvas, onde as casas eram residências particulares, as pessoas muitas vezes obrigadas a deixá-las e a amontoarem-se em residências de outros para deixarem as suas disponíveis aos militares, e noutros casos de coabitação, não eram raras as queixas de abusos das jovens por parte dos impostos “inquilinos”. Segundo li e ouvi, os apartamentos de férias do caso nosso contemporâneo, estavam embargados pelo estado por questões processuais, logo, não se tratava, propriamente, de invadir propriedade alheia. Há algumas diferenças significativas, e se estou errada gostaria que me corrigissem. A história não é, nunca, pretendendo ser verdadeira, passível de ser contada a preto e branco e aqui me limito a trazer, imperfeitamente, algumas achas para a fogueira da reflexão. E votos de excelentes férias!

Artigo anteriorFogo de artifício galáctico
Próximo artigo“O Elvas” CAD já conhece adversários no Campeonato de Portugal
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.