Acácia
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Opinião de Risoleta C Pinto PedroExiste, em Estremoz, na Sociedade Recreativa Republicana Estremocense, uma sala grande integralmente forrada a azulejos: paredes e abóbada. Tive a oportunidade de a visitar demoradamente há uns anos, e deleitar-me com o simbolismo exuberante dos painéis. António Telmo, filósofo que escolheu Estremoz para viver e aí permaneceu até ao fim da sua vida, escrevia, em 1999, em carta ao «estimado leitor» posteriormente encontrada no espólio, que apenas três anos antes estes azulejos haviam sido descobertos, por se encontrarem revestidos  por uma «espessa camada de caliça». Sociedade-EstremocenseNa altura em que escrevia, a enorme sala servia para leitura e baile. Mas era também nesta Sociedade que Telmo se dedicava à muito apreciada actividade de jogador de bilhar, em que era mestre.

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Não consigo imaginar este rico manancial oculto, sabe-se lá durante quantos anos. Apenas se consegue especular. Um ou dois séculos. As teorias dividem-se. Há quem diga que terão sido os republicanos, por causa da sua atitude em relação à religiosidade, a cobrir os azulejos, assim profanizando um espaço repleto de sagrado. Outra teoria é que tenham sido os próprios que usavam este espaço com fins provavelmente iniciáticos, sob o lema da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, a esconder os símbolos dos absolutistas, durante as lutas liberais.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Trago aqui hoje estes azulejos com um duplo propósito: o de convidar ou incentivar a que visitem o magnífico espaço; e também para uma reflexão sobre o momento que vivemos, literalmente entre dois mundos ou dos tempos. Nestes dias de um Outono em que o calor ainda se faz sentir, por vezes com maior intensidade do que em alguns dias de Verão, já se adivinha, já se sente, na pele, uma frescura discreta ou um vento frio que antecipa o Inverno. Há umas noites atrás, no jardim, onde passeava os cães, tive uma sensação térmica e emocional de Dezembro ou Janeiro.

Telmo-e-o-bilhar
António Telmo

Num dos painéis, um jardim circular deixa ver, ao longe, três acácias. Telmo diz que elas «esvoaçam», aguardando uma abelha, apesar dos espinhos. Como se sabe, é por volta de Janeiro, Fevereiro, que florescem as acácias, logo, ainda no Inverno. Antecipando a Primavera. Escreve António Telmo: «Vem ainda longe a Primavera. Mas uma flor rebenta, é como ouro em pó de suave aroma, vagamente venenoso, só para iniciados. Ponho nesta frase um espinho para que não a toquem». Com esta prosa de poesia pura, Telmo conduz-nos ao lado mais misterioso da acácia, essa planta que dá à luz pequenos filhos de sol. Trago-a aqui hoje imitando-a na antecipação. Se ela se antecipa à Primavera, eu antecipo-a ao Inverno, e uso-a como luz para nos ser mais fácil atravessar o escuro túnel invernal.  E retiro o espinho, para que possam transportá-la, sãos e salvos, atravessando o corredor escuro dos dias pequenos e húmidos, até ao novo Éden que é sempre o redespertar da Natureza. O Outono e o Inverno com sua melancolia e convite à interiorização, exigem de nós sólido estofo moral que não sucumba à tristeza. A acácia é a candeia de Deus a avisar que a travessia está quase a terminar, que não nos deixemos sucumbir, que façamos mais um pequeno esforço até à luz.

Neste momento ainda estamos à saída da claridade, espera-nos o escuro dos próximos meses, e como necessitamos dele, também! O encontro com a caverna que está dentro do nosso coração é neste tempo que se dá, e é importante não o desperdiçar. A vida é ritmo e nós, por razões de saúde mental,  precisamos de contemplar os ramos nus das árvores fustigadas pelo vento, o chão molhado onde sob a terra a semente apodrece, e, à maneira de outro azulejo onde uma mulher segura um grande ramo de acácia, saibamos, depois deste cálice amargo, adivinhar as plantas que rebentam sob os nossos pés e o sol que desperta sobre as nossas cabeças de crianças tristes invernais.

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.