Adelaide Cabete
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Opinião de Graça AmiguinhoImaginemos Elvas em 1867 e a vida dos pobres dessa época. Privações, muitas privações eram o “pão de cada dia” da maioria da população.

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Não seria muito diferente do que se passava na minha Aldeia, porque pobre é pobre, em qualquer lugar. Os meus bisavós viveram nesse tempo, muito sofreram, muito trabalharam, e, apesar das suas inteligências, eram analfabetos e os seus filhos tiveram a mesma desdita.

No dia 25 de Janeiro desse ano, na freguesia de Alcáçova, em Elvas, nasce Adelaide de Jesus Damas Brazão, que cedo conheceu a dureza do mundo, pois ficou órfã em tenra idade e outro caminho não havia para percorrer, a não ser o do trabalho infantil, ajudando a sua Mãe na apanha e secagem da ameixa, tarefa mal paga, como eram tantas outras.

Outro trabalho que procurou, para sobreviver, foi o serviço em casas de gente abastada da cidade, ficando privada de ir à escola primária, tal como tantas outras crianças da sua idade, sendo impedida, pelas suas condições sociais, de aprender a ler.

Mas como a inteligência e a determinação não são apenas apanágio de alguns, esta menina não se conformou com o destino que outros lhe queriam traçar. Tomou-o nas suas próprias mãos e em virtude da sua grande inteligência, aprendeu a ler sozinha, talvez nem ela soubesse, como!

Uma solução para dar o salto do marasmo em que vivia, era o casamento. Elvas foi sempre uma praça-forte e frequentada por militares.

Adelaide apaixona-se e casa aos 18 anos com Manuel Ramos Fernandes Cabete, um sargento, republicano, num tempo em que Portugal era governado pela Monarquia.

No casamento encontrou mais que o amor da sua vida, encontrou o pai que não teve e que a ajudava nas tarefas domésticas. O marido, reconhecendo e admirando a sua enorme inteligência, incentiva-a  a estudar, sinal de que era um homem progressista e que via a Mulher como sua igual e não como sua escrava.

O primeiro presente que lhe ofereceu foi uma gramática!

O seu progresso foi enorme e, com 22 anos, em 1889, fez o exame de instrução primária.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho
“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo, a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho

Mas não ficou por ali. A sua ânsia de saber e aumentar os seus conhecimentos era tão grande como a planície onde nascera. Em 1894, conclui o curso liceal com distinção.

O amor do marido e o respeito que tinha por ela era tal, que, em 1895, Manuel resolve vender as suas propriedades para poder custear os estudos da mulher e vão viver para Lisboa, matriculando-se, Adelaide, no ano seguinte, na Escola Médico-Cirúrgica, onde conclui o curso em 1900.

A par dos estudos, despertou nela o desejo enorme de defender os mais fracos, sobretudo as mulheres, vítimas de uma sociedade machista.

A sua tese de curso foi, exactamente, sobre a “Protecção às mulheres grávidas pobres como meio de promover o desenvolvimento físico das novas gerações”.

A sua mentalidade era de tal forma evoluída que, na sua tese, fazia um apelo ao Estado para interferir na prevenção da natalidade e atreveu-se a propor uma lei que permitisse às trabalhadoras ficarem em repouso no último mês de gravidez e com um subsídio calculado de acordo com os lucros da empresa onde trabalhava, com a colaboração do Estado e uma quota mensal das próprias trabalhadoras.

Grandes professores, famosos, ela teve e lhe serviram de exemplo. Tornou-se a terceira mulher a concluir um curso de medicina, em Portugal.

Especializou-se em Ginecologia e Obstetrícia, abrindo um consultório na Praça dos Restauradores na capital, a bela cidade de Lisboa.

Imparável na sua dedicação à educação sexual das mulheres e aos cuidados materno-infantis, não esqueceu as suas origens, a cidade de Elvas que a viu nascer e fazer-se mulher.

Corria o ano de 1901, apenas um ano após a sua licenciatura e publicou no “Jornal Elvense,” um artigo subordinado ao título “Instrua-se a Mulher”.

Grande e rica é a vida desta Mulher Elvense que merece não ser esquecida pela sua cidade, em virtude da sua coragem, inteligência, determinação e ideais revolucionários que abraçou fervorosamente.

Todas as Mulheres precisam de exemplos de outras Mulheres que ficaram na História, para que se sintam impelidas a inovar, a construir um Portugal mais culto e justo, como o sonhou  Adelaide Cabete!