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Já aqui falei dela em crónica anterior, onde referia o facto de ter estado desaparecida, e o meu deslumbramento e espanto quando me deparei com a sua imagem num Maio relativamente recente em que me desloquei à sua festa e vi, não uma virgem convencional, europeia, mas uma magrebina, sem tirar nem pôr. Entretanto, andei à procura, em casa da minha mãe, da fotocópia de uns versos chegados há uns anos do Alentejo e onde, à maneira da poesia popular, são narradas as aventuras e desventuras da imagem até regressar à sua ermida. Procurei também as fotos que na altura fiz dela e encontrei uma. Não resisto igualmente a fazer acompanhar esta crónica da fotografia de um registo que uma amiga minha que tem como hobby, fazendo-os à semelhança dos antigos. Criou-o a partir de uma fotografia da imagem da Senhora que eu lhe facultei. Agora aproxima-se a data da sua festa e procissão (creio ser precisamente no feriado de 1 de Maio) e por isso aqui vos trago os versos. Para que não julguem que estou a inventar, faço acompanhar a crónica de uma fotografia do documento integral. Apenas oculto o nome do autor, porque não sei se gostaria que o revelasse.

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Nos versos, o senhor, autor dos mesmos, mostra que terá sido o filho dele a devolver a santa (ou estarei a interpretar mal?):

Foi o meu filho que te salvou
Nos seus braços te levou
Essa alma protectora.

Contudo, este mesmo autor dos versos terá sido o responsável pelo desaparecimento da santa:

Hoje estás linda e formosa
porque foste recuperada
Pra que não sejas roubada
Eu fico pedindo a Deus
porque debaixo dos tectos meus
40 anos eu te guardei bem guardada.

Desaparecimento alegadamente também com intuito de protecção: para que não fosse roubada. Este autor dos versos tal como do desaparecimento da imagem considera-se, segundo o Mote, «uma alma protectora». Um caso interessante para a justiça: aquele que leva para que outros não roubem é um protector? Não faço juízos de valor, nem esse é o meu papel, apenas trago aqui um caso interessante que se tem repetido ao longo da história da iconografia: o desaparecimento das imagens, por vezes, como neste caso, que termina de modo feliz, com reaparecimento. A história acabou bem. Estarei eu a fazer uma leitura certa do que aconteceu? Talvez tenha sido precisamente por este senhor ter guardado a imagem, que hoje ela existe disponível para quem quiser vê-la. Apenas tenho esta folha de versos em que me basear, e todos sabem que a verdade da poesia nem sempre é a verdade dos factos. Estes versos são atravessados pelo paradoxo e têm o dom de nos confundir. Seja como for, é um caso interessante, uma história com final feliz envolta em vários mistérios, nomeadamente o do inusitado rosto da Senhora da Ventosa. O autor dos versos tem apelido de arcanjo, o que leva a inclinar-me para a tese da benevolência do seu gesto. Nem sempre a justiça dos homens é compatível com a justiça do Espírito. Os caminhos de Deus são muito tortuosos. Actualmente, se não me engano, segundo me contaram, a imagem apenas visita a sua casa por altura da festa, estando durante o resto do ano, por questões de segurança, na Igreja de São Vicente. Para quem esteve quarenta anos fora de casa, já tanto se lhe dá como se lhe deu, calculo eu. Habituou-se a andar por fora. Afinal, é Senhora da Ventosa, isto dos nomes tem o seu peso, com Ventosa no nome é-lhe mais natural andar de um lado para o outro ao sabor dos ventos do que sempre fechada e guardadinha no mesmo sítio. E compreende-se, a Capela da Senhora da Ventosa ergue-se num ermo, seria demasiado fácil o rapto sem testemunhas (como ele diz: «Neste campo tão sozinho/ Aonde tens a tua Ermida»).

Sobre a palavra «ermida», vejamos o que diz a página “Ciberdúvidas da Língua Portuguesa”: “Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesaermida evoluiu do latim eremīta,ae, «lugar deserto, afastado, o que vive ou fica solitário, nesse lugar», mediante a acepção «pequena igreja em lugar ermo», adquirida no latim tardio. O próprio termo latino já era uma adaptação do grego érēmos ou erêmos,é,on, «deserto».

Da mesma raiz grega, passando pelo latim, também se formou eremita, «o que por penitência vive num lugar deserto», por via erudita ou semierudita. Algo de semelhante sucede com a palavra ermo, que se desenvolveu a partir do latim erĕmus,a,um em vez de erēmus, «ermo, deserto», empréstimo do já mencionado termo grego érēmos.”

A esta luz compreende-se perfeitamente o gesto protector do senhor com apelido de Arcanjo para com a Senhora sozinha a viver num ermo, como eremita. Compreende-se, também, que depois de quarenta anos na companhia da Senhora (muitos casamentos não duram tanto), não tenha sido fácil apartar-se dela, daí mais valor ter ainda o seu gesto de devolução («Quando te vi abalar/ Senti uma forte emoção/ Comoveu-se-me o coração/ Meus olhos senti chorar»). É o secular, milenar, intemporal tema da partida, a lembrar o poeta medieval João Roiz de Castelo-Branco, na sua “Cantiga Partindo-se”:

Senhora partem tão tristes
meus olhos por vós meu bem
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Tão tristes, tão saudosos
tão doentes da partida
tão cansados tão chorosos
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.

Perdoem-me alguma falta de rigor da citação, que faço de cor, a minha intenção era aqui conferir a dignidade da antiguidade a um arquétipo que é afinal o da humanidade: a separação. Já Camões, em mote seu: «Se Helena apartar/ do campo seus olhos,/nascerão abrolhos».

Aqui vos deixo com este enigma, na esperança de que alguém consiga desenrolar a meada. Que se calhar não o é, mas apenas na minha cabeça, na minha desaustinada imaginação de ficcionista. Ou talvez não seja desenrolável, a meada. Ou talvez ninguém ganhe nada com isso. Provavelmente será melhor deixar tudo assim, contribuindo deste modo, com estranho sentimento, para a criação de mais um mito. Que a Senhora proteja todos! E a si mesma!

Sobretudo, que ninguém deixe entrar o Maio, como era tradição quando eu era criança, em que na madrugada do dia um, a minha mãe entrava pelo meu quarto com um prato de doces a acordar-me, como se tivesse enlouquecido. Já não vivíamos no Alentejo, mas creio ter sido do Alentejo que transportou a tradição consigo. A ideia era não deixar entrar o primeiro dia de Maio a dormir. Os doces tinham, para isso, um efeito anti-soporífero e, confesso, delicioso. Era a única ocasião em que não me aborrecia com a minha mãe por ela me acordar cedo. Cheguei a propor-lhe que me acordasse todos os dias dessa maneira, mas não consegui convencê-la. Ainda bem. Porque o meu corpo não teria beneficiado, e hoje não teria a memória de uma madrugada excepcional, uma por ano, apenas, inundada de doces como sóis nascentes. Vacina de felicidade que mais tarde tentaria inocular nos meus filhos, sem grande sucesso. Não a felicidade, mas a vacina. Fazia-os mais felizes o dormir até lhes apetecer. Diziam-me que guardasse os doces para quando eles acordassem, o que me fez pensar que eram muito mais espertos do que eu. Como nunca me lembrara de tal? O chamado dois em um: dormir até querer e ser recebida na alta manhã por um prato de doces. Pensamento típico de adolescentes normais com tino. Talvez eles conseguissem deslindar o mistério da Senhora da Ventosa, mas entretanto já cresceram, têm mais que fazer que correr atrás de maluquices de mãe…

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.