Dórdio Gomes, Alentejo 1930
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Opinião de Risoleta C Pinto PedroÉ de Dórdio Gomes a pintura “Alentejo”, pintada em 1930. Nela está representado aquilo que podemos considerar o estereótipo da paisagem alentejana, mas uma observação mais fina mostra algo para lá do usual. Digo “algo”, pois pela indefinição ali cabe o que a sensibilidade de cada um lhe mostrar. Aquilo que eu ali vejo não será, necessariamente, o que mais toca a cada um dos leitores. Porque há as experiências individuais, as memórias, a forma como cada um chegou ao mundo e o modo como cada um se lhe adaptou

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Há quem situe o percurso de Dórdio Gomes entre o naturalismo, o cubismo e o expressionismo, mas na minha fraca capacidade avaliativa e interpretativa em pintura, do ponto de vista estilístico, mas sobretudo do que sinto, há muito mais, neste quadro, de traço impressionista, do que qualquer outro. O que não significa que o impressionismo faça o seu estilo, contudo adequa-se, no meu entender perfeitamente, ao Alentejo onde nasceu, e sobretudo às impressões que em nós semeia, como pré-seara.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Os dourados e os azuis preponderam, com uns traços verdes. O azul humano da camisa e das pedras transfiguradas pelo olhar do pintor é um azul igual ao céu, um céu vagamente “vangoghiano”, acinzentado com umas pinceladas de branco e preto, como se o cinzento se decompusesse em cor e não cor. O mimetismo da camisa e das pedras faz-me pensar que é como se o homem se vestisse de pedra, como se as pedras fossem a camisa do chão. Ainda hoje este azul me evoca blusas de avó. O Alentejo é azul, melhor, é azuis. As faixas pintadas do alto rodapé exterior das casas são únicas, não vejo este azul em mais nenhum lugar. Mas esse não tem cinzento, talvez antes algo de dourado negociado com os anjos, tal como a cor das blusas das minhas avós, que filtravam raios de sol pelas frinchas das janelas e teciam meias com muitas agulhas ao mesmo tempo com que esquadravam a obra com a perícia posta pelo criador na formação do mundo e o pintor na formação do quadro. Agulhas de avó eram esquadros, compassos e pincéis que teciam linhas como fios de tinta ou potenciais linhas transformando em tapeçaria a pintura. Arte real.

Em primeiro plano, o verde erva dos caules próximos, ao fundo o verde árvore. Ainda em primeiro plano, o único traço negro, o do chapéu. Sob ele adivinha-se o branco do cabelo. Árvores e homem inclinam-se para a direita pelo esforço, ou por um vento que se adivinha. O chão não se move, é o elemento estável. Como a memória, na sua esplendorosa fixidez. Vale a pena entrar nesta pintura, menos seguro é saber como se sai. Problema que, pela sua natureza secundária, pode ser adiado. Venha, leitor. Use a sua fibra. E deslumbre-se.

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Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.