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No regresso da Universidade de Brasília no final dos anos 60, o filósofo António Telmo, que viveu várias décadas no Alentejo, foi para Granada, onde esteve com a família durante algum tempo.

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A ideia era partilhada com Agostinho da Silva, que tinha o projecto de levar ao mundo portugueses com um pensamento de qualidade. Aí leriam, estudariam, ensinariam, conheceriam pessoas, assistiriam a conferências e sobretudo estariam presentes, com sua distinta forma de estar. Isso afectaria, pela positiva, dadas as nossas características específicas, quer o local, quer o mundo, havendo mecenas que, por respeito a Agostinho e admiração pelas suas ideias, financiavam este original empreendimento.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Assim, esteve António Telmo em Granada a estudar Ganivet, sobre o qual certamente conversara com Agostinho nos anos em que estiveram juntos a leccionar em Brasília. Já tinha este último escrito e publicado um texto sobre o espanhol, nos seus célebres Cadernos de divulgação cultural dos finais dos anos trinta, inícios de quarenta.

Neste folheto de 1941 sobre o escritor e diplomata, com o título Ganivet e subtítulo “A Arte Espanhola”, de uma colecção “Antologia” de “Introdução aos Grandes Autores”, é evidente a presença de uma característica da sua escrita nos Cadernos, Biografias e até ficção, que é a exposição, por interposta pessoa ou personagem, do seu próprio pensamento, ou o realce, no pensamento do outro, daquilo que converge com as suas ideias. Assim, quando fala do autor nascido em Córdova em 1865, este homem de reflexão e acção atribui-lhe, como intelectual, «sentido de equilíbrio», «disciplinada reflexão» e «acção coerente», qualidades que não encontra em Unamuno, de quem Ganivet foi amigo.

Apesar de estarmos mesmo aqui ao lado, não conhecemos muito sobre a cultura espanhola. Falo por mim. E contudo, não só nada perderíamos de nós, como muito ganharíamos todos. Para o Alentejo e o Algarve, as espanholas Estremadura e Andaluzia são uma espécie de irmãs geográfico-culturais. O excelente poeta algarvio Manuel Neto dos Santos atravessa a fronteira para ler os seus poemas e apresentar os seus livros como quem vai ali ao jardim do lado, está constantemente a ser convidado e é profundamente e justamente apreciado pelos nossos “hermanos” que amam a poesia.

Num futuro breve, uma antologia artística a partir dos pólos Elvas, Campo Maior e Badajoz será publicada, com expressão literária e visual essencialmente de artistas locais, sob a iniciativa e extraordinária dinâmica e coordenação de Graça Amiguinho de Barros, ilustre colaboradora deste Portal. Outras iniciativas haverá que eu não conheça ou não recorde, e todas são de louvar. Mais deveria haver. Sugiro, por exemplo, residências artísticas, filosóficas, culturais, entre os dois países, como Agostinho da Silva promoveu “avant-la-lettre”, com a presença de António Telmo em Granada, muito antes do conceito se alastrar. Estas residências ibérias ou hispânicas acolheriam portugueses e espanhóis e poderiam ser férteis em reflexões, espectáculos, livros, exposições, vídeos… e outras novas fórmulas que de lá saíssem. Aqui deixo a ideia, na fronteira. Entre o sonho e a realidade.

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.