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Opinião de Risoleta C Pinto PedroDiz Agostinho da Silva em seu Caderno de Lembranças

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“quando havia tempo, tão preciosa coisa, era para haver tempo e nada mais. “

Neste ambiente utilitarista em que vivemos, até o tempo tem um preço. Ou não dispomos dele, ou temos de o pagar bem caro.

Num momento em que, devido a pequeno incidente, fiquei provisoriamente molestada na mão direita e impedida de a utilizar, subitamente o tempo surgiu, diria mesmo, jorrou nos meus dias. Porque só com uma mão funcional, e ainda por cima a esquerda, uma lista interminável de coisas deixou, temporariamente, de ser possível. Foi-se a lista, ficou o tempo.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Olho a minha mão direita, agradeço-lhe por todo o incondicional apoio ao longo destes anos, peço-lhe desculpa por não ter sabido cuidar bem dela, e vejo-me, muitos anos atrás, quando ainda bebé descobri que tinha mãos, e tento reconhecer as mãos de então, entretanto segundo os físicos, milhões de vezes reconstituídas, se é verdade que os nossos átomos estão constantemente a desintegrar-se e novamente a reconstituir-se. Como ressurgem sempre tão iguais, senão pela força do pensamento criador? Para o bem e para o mal. Fala o mesmo Agostinho no “múltiplo universo do átomo”. E que “em tudo está a essência” e “tudo na essência está”.

Se eu conseguisse que numa das próximas reconstituições dos átomos da minha mão direita desaparecesse a ofensa que sofreu e lhe provocou a dor… já poderia fazer todas as coisas da longa lista, mas iria conseguir conter-me para não assustar o tempo. Como na minha infância no Alentejo, quando ele me seguia desde que me levantava até que me deitava. E as minhas mãos estavam íntegras. Hoje preferiria ter o tempo, e a mão sem dores. Mas foi assim que aconteceu, e por isso afirmo, com Agostinho [S. Francisco também poderia tê-lo dito]: “Louvada seja minha irmã doença”.

Era também Agostinho que se queixava de lhe ser escasso o tempo para não fazer nada. E no entanto, deixou uma obra colossal. Apesar de saber o valor do tempo. Queria ter tempo para não fazer nada se tal lhe apetecesse. Contudo, nunca era isso que apetecia a esse grande construtor. Mas acredito que lhe agradava saber que, se tal decidisse, pararia com toda a actividade. Talvez por isso nunca o fez. O luxo dos ricos de espírito pode passar pela economia de tempo. Que é dinheiro.

A citação inicial de Agostinho é sobretudo dirigida ao tempo da infância, aquele momento em que temos todo o tempo do mundo. O tempo da infância no Alentejo daquele tempo era duplamente rico e lento. Tardes longas como comboios parados, ar quente e seco como o deserto, nada para fazer, sol grande e incandescente como estrela que nos esquecemos que é. Os adultos desapareciam do universo das crianças, não sei para onde iam, ficávamos só nós, crianças únicas no meio da solidão da planície, onde as casas brancas e as ruas desertas não inspiravam actividade alguma. Todas as brincadeiras desapareciam como se um vento quente de esquecimento as tivesse levado para a não existência. E o tempo era o único companheiro, lento como Saturno, e não sabia brincar. As mãos, viajantes do tempo, passavam de agentes a observadoras, a precaver futuros males, a treinar repousos, a ensinar outros pousares, novos caminhos, súbitas quedas, lentos levantares, diferentes olhares, inevitáveis aprenderes.

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.