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Opinião de Graça AmiguinhoHá meses, atrás, parecia-nos que o Alentejo, por milagre, não seria fustigado pela pandemia, que já tinha devastado tantas vidas, em muitas regiões de Portugal e do mundo.

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Mas, tudo, o tempo traz, apesar de Portugal ser hoje, muito diferente dos tempos idos e não nos sentirmos sós, na ponta mais ocidental da Europa.

A Europa está connosco, a Europa é solidária nas horas de maior aflição, os países mais ricos colaboram com os mais pobres, prestando a ajuda necessária.

Porém, tal como em 1918/19, o Alentejo sofre, hoje, como sofreu há 100 anos, embora as condições sociais e sanitárias sejam muito melhores e a comunicação seja completamente diferente, levando a cada casa, as notícias, com a velocidade de um relâmpago e ajudando as pessoas a ter conhecimento dos perigos que as rodeiam.

Desse tempo, já remoto, resta-nos a memória falada e transmitida pelos nossos pais e avós, porque os sobreviventes desse tempo, são raros.

Sempre ouvi contar à minha mãe, nascida em 1920, que a tia Maria, a irmã mais nova do meu avô materno, morrera com a pneumónica.

Guardo dela, uma linda fotografia, e bastante grande, que esteve sempre presente na minha vida, tal foi o desgosto sentido pela família.

Em Portugal, a pneumónica de 1918, foi a maior tragédia do século XX, em termos de mortalidade. Há testemunhos diversos da grande dimensão pública da gripe, que por todo o país, fechou escolas, abriu enfermarias e obrigou a enterrar dezenas de cadáveres, num só dia, inclusive à noite.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho
“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo, a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho

Personalidades de relevo sucumbiram à grave doença, entre elas, o Conde de Almeida Araújo, os compositores António Fragoso e Pedro Blanco, os pintores Amadeo de Sousa Cardoso e Santa-Rita e os videntes de Fátima, Francisco e Jacinta.

A pneumónica, tal como hoje acontece com o Covid 19, afetou todos, ricos, pobres, enfermeiros, farmacêuticos e até médicos.

Estudiosos deste tema, pensam que, em 1918, o que poderá ter contribuído para o agravamento e o alastrar da gripe e o seu carácter extremamente violento, em Portugal, estará relacionado com a combinação de fatores de ordem social, económica, política, nutricionais e sanitários.

Nessa época, Portugal vivia uma crise económica, a par de uma agitação social e política fortíssima, que culminou com o assassinato do então, Presidente da República, Sidónio Pais.

A estes fatores, associaram-se outros, tais como a disseminação rápida da doença, a movimentação da população, quer aquela que se deslocava de um lado para o outro para fazer trabalhos agrícolas, como as ceifas e as vindimas, ou a que se reunia em feiras e romarias, idas para estâncias balneares e termais, embora fosse uma minoria, ou ainda as movimentações de soldados.

A Guerra, a Fome e a Morte concentravam-se num verdadeiro cortejo fúnebre.

Há 102 anos, o primeiro caso de gripe espanhola, no Alentejo, também apelidada de pneumónica, entrou no concelho de Vila Viçosa, trazida de Espanha, por trabalhadores que ganhavam o seu pão, do outro lado da fronteira, nos campos agrícolas de Olivença.

Tal como aconteceu em diversas partes do Globo, a pneumónica deixou, em Portugal, de norte a sul, um rasto de morte. Calcula-se em 100 mil mortos, muito mais do que os que ocorreram na Primeira Guerra Mundial e na Guerra Colonial.

Não há registos em imagens, desta tragédia, porque em 1918, havia censura em Portugal.

Hoje, temos a lamentar o sofrimento, a dor dos que ficam e nada podem dar aos que partem. Partem sem um adeus, sem um abraço, sem um beijo.

Temos também de enaltecer a dedicação, sobre-humana, de todos os que ajudam quem está no corredor da morte, esquecendo-se da sua própria vida.

A história repete-se, embora hoje, todos os povos tenham melhores condições em todas as vertentes, na generalidade.

Poderemos colaborar, dentro do que nos é possível, com a nossa atitude, para o vírus não se propagar. Quanto maior for a transmissão da doença, menos pessoas sobreviverão.

É tempo de nos unirmos. É tempo de acatar as ordens que nos são dadas.

É tempo de nos respeitarmos mais, uns aos outros e não nos perdermos com discussões, que a nada nos conduzem.

É tempo de não apontar o dedo a ninguém. Ninguém tem culpa por estar infetado.

Criticar é sempre o caminho mais fácil. Optemos por aconselhar!

Desejo que as vacinas sejam distribuídas e aplicadas em primeiro lugar, a quem mais delas precisa.

Não podemos ser colaboradores de injustiças, não podemos aceitar tratamentos diferenciados e privilegiados.

Que a corrupção, a qualquer nível, seja severamente reprimida.