Alentejo | O meu prazer nascido dos sentidos

Paula Freire, opinião
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Entrava há uns dias no interior do prédio onde resido atualmente quando me senti invadida por um intenso, mas inesperadamente reconfortante, cheiro a uma mistura de linhaça, resina e âmbar. Reparei que a madeira que reveste o interior do edifício tinha acabado de ser envernizada.

O odor presente no ar foi o rastilho que acendeu um manancial de memórias e me fez recuar vários anos da minha vida.

Um retorno à minha infância, adolescência e parte da idade adulta. Um regresso ao verão do Alentejo. Ao aroma libertado pelas paredes acabadas de pintar da casa dos meus tios, quando certo ano os fomos visitar, e que me ficou como uma herança olfativa.

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É disso que me apetece escrever hoje. Do meu, do vosso Alentejo.

Do silêncio. De um horizonte azul de céu e mar impregnado de magia, entrecortado pelo ouro luz do entardecer numa imensidão a perder de vista.

Do som das cigarras que já não ouço.

Dos casarios, bordados por cores luminosas, das aldeias e vilas espalhadas aqui e ali como pontinhos brancos a respirar frescura debaixo do sol quente de estio.

Esse sítio de vastas planícies feito de lonjuras, com um toque de solidão pacífica, quase espiritual, que apetece sentir àqueles que gostam de se ver como a tartaruga descontraída, numa corrida onde todos os outros testam incansavelmente as suas capacidades de velocidade.

Desse sentimento especial que é preciso viver para conseguir compreender, tão difícil é de descrever apenas com palavras.

E todos os anos, sem exceção, lá estava a casa dos meus tios, pequena, branca, acolhedora. O pátio sombreado pelas videiras, esmeradamente limpo, enfeitado com os vasos de sardinheiras e os aromáticos coentros e hortelã. A entrada direta para a cozinha, divisão principal de uma típica casa alentejana, palco de muitos afazeres e lazeres.

No decorrer dos dias, sensações profundas iam despertando notas perfumadas de intensos aromas, sabores genuínos e cores únicas.

O paladar e o olfato numa viagem de mãos dadas, deixaram-me ficar o sabor inesquecível da açorda, das migas, das sopas de cação, das sardinhas fritas e das torradas com azeite, açúcar e canela.

E ainda aquele pão de trigo delicioso e estaladiço, cor de marfim e de gosto ligeiramente ácido que, como em tempos li escrito por um verdadeiro conhecedor da gastronomia alentejana, “não tem pressa de ser comido”, tal é a sua duração sem sucumbir ao avançar dos dias, como se fosse quase um pão sagrado.

Alentejo - o meu prazer nascido dos sentidosPelas manhãs, na ida ao mercado da aldeia, era indiscutível a passagem pelo pequeno talho onde os olhos e as mãos caíam gulosos sobre os bolos de torresmos. Que me desculpem o que possa soar a pouca ambição no campo da doçaria, mas entre sericaias, barrigas de freira ou bolos de mel, a minha preferência ia sempre para aquela singela iguaria, para mim, inigualável.

Nesse tempo, já nada era feito em chãos de lareira acesa, sobre o crepitar da lenha no forno, ou com recurso à salgadeira. Mas o certo é que a singularidade da comida alentejana deixou marcas intemporais para quem, como eu, não teve possibilidade de conhecer os antigos verdadeiros luxos da simplicidade culinária deste povo, que soube fazer jus ao provérbio que nos dita que “a necessidade aguça o engenho” e, assim, do tão pouco fez tanto e tão bem.

Também não esqueço, pelo final da tarde e já com o calor a dar tréguas, nas visitas às casas das vizinhas e amigas de infância da minha mãe, dos cumprimentos dados às gentes conhecidas sentadas nas soleiras das portas, em frente das casas ou nos bancos que acomodavam plateia curiosa a quem passava nas ruas. Local onde o alegre convívio, tantas vezes, deixava no ar aquela particularidade tão própria dos alentejanos, absolutamente louvável, de contar jocosas e divertidas anedotas sobre si mesmos.

Por fim, nos passeios da noite, depois do jantar, a brisa fresca acordava o torpor do dia e, com esse agradável arrebitar momentâneo, era fácil entrar-nos na alma a incomparável emoção desencadeada pelas estrelas a brilharem sobre o manto noturno, a confirmar ao coração que o céu não tem limites.

Lembranças que sobrevivem ao tempo. O meu verão no Alentejo. O prazer nascido dos sentidos num cenário de aconchego, onde tempo era tudo o que, por esses dias, eu tinha.


A articulista actua como Colaboradora do Portal Elvasnews e o texto acima expressa somente o ponto de vista da autora, sendo o conteúdo de sua total responsabilidade.

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Paula Freire
Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside actualmente em Vila Nova de Gaia. Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas das Relações Humanas e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada. Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias. O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora de imagens de capa de obras poéticas lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021. Nos últimos anos, descobriu-se também no seu ‘amor’ pela arte da fotografia onde aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.