©Fernando Paulino
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Corre nas minhas veias o mais puro sangue alentejano. Tão puro que chego a pensar pertencer a uma «nova espécie!», amorosamente, por Deus criada!

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Ao ler alguns pensamentos publicados no livro “Alentejo Prometido”, sinceramente, confesso, me envolveu um profundo sentimento de repúdio ao qual darei voz, a voz dos meus antepassados, nesse livro tão vergonhosamente ultrajados!

Quando assuntos tão delicados e dolorosos são abordados com leviandade ou, atrevo-me a dizer, uma maldade inqualificável, não é possível deixar de criticar um jovem escritor que se considera um «deus» para catalogar e julgar o povo alentejano.

Segundo o autor do livro ,”O QUE DISTINGUE O ALENTEJO NÃO É A POBREZA, A PAISAGEM, O CALOR, A SOLIDÃO OU A GENÉTICA, MAS SIM A ARRUMAÇÃO DO SUICÍDIO NA PRATELEIRA AMORAL, NO ÂNGULO MORTO DA MORAL”

Grande provocação! Ignomínia! Afronta sem pudor! Ignorância disfarçada de erudição!

Tentarei, na minha singela forma de ver a Terra que me viu nascer e crescer, o Alentejo, desmontar toda esta arrogância e desejo de protagonismo, à custa dos alentejanos.

O Alentejo sempre foi uma região predominantemente habitada por pobres, desde tempos remotos. Os grandes latifúndios eram propriedade de muito poucas famílias que tinham o poder de decidir a vida dos trabalhadores que os serviam.

Os ricos viviam afastados dos pobres! Nem nas igrejas estavam lado a lado! Tinham os seus lugares reservados.

Viviam em ricos aposentos onde nada lhes faltava e, se alguém lhes batia à porta, em suas casas ninguém, que não fosse dos seus, entrava!

O trababalho era para os pobres que viviam miseravelmente, recebendo as migalhas que sobravam das mesas dos seus senhores. O povo, na sua maioria, aceitava, resignadamente, a sua sorte  de uma forma afável e submissa, respeitosa e dedicada.

Felizmente que os tempos mudaram e hoje, a pobreza, não é tão grande nem os ricos são tão ricos como antigamente.

À paisagem alentejana ninguém pode negar o seu encanto e misticismo! O Alentejo é incomparável a qualquer outra região do nosso pequenino Portugal!

O coração do alentejano tem a grandeza da planície que se estende diante dos seus olhos!

A Primavera aproxima-se e, no Alentejo, os campos enfeitam-se das mais belas flores que tornam o ar encantador!

O nosso calor? Sim, o sol do Alentejo é bendito e o mais bonito de quantos vejo, como diz a canção.

Solidão! Onde está a solidão? O que é a solidão? É ausência? É vazio? É tristeza?

Não! A solidão do alentejano é o silêncio da sua alma caminhando ao encontro do infinito. Quantos vivem em solidão entre multidões? Quantos morrem na solidão com tudo o que precisam?

Quando o autor fala em “Genética” sinto-me bater a uma porta que não posso abrir pois não sei o que está do outro lado.

Nós, alentejanos, somos geneticamente diferentes dos nossos compatriotas? O que nos diferencia uns dos outros são os nossos costumes, a nossa gastronomia, a linguagem, frutos da herança deixada pelos povos que outrora habitaram o nosso chão.

O “ALENTEJANO ARRUMA O SUICÍDIO NA PRATELEIRA AMORAL, NO ÂNGULO MORTO DA MORAL”. Esta afirmação é uma grave agressão à nossa moral colectiva, uma aberração sem precedentes! Jamais vi ou ouvi alguém, na minha Aldeia, considerar o suicídio uma coisa normal ou aplaudir tal decisão !

Observei, sim, tristeza profunda. Antigamente nem o funeral de quem se suicidasse  tinha acompanhamento religioso! Isso era uma marca de extrema dor para a família do defunto! Os alentejanos são crentes e, na sua maioria, praticam a religião Cristã!

O maior remorso das famílias prende-se sempre com a sua incapacidade de conhecer o drama que o seu doente psíquico atravessou. Muito há a fazer neste campo para ajudar quem sofre, muitas vezes sem saber a razão do seu sofrimento .

(Cont.)