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Toda a gente conhece o famoso episódio da História de Portugal sobre os amores de D. Fernando com Leonor Teles. Fernão Lopes e Jaime Cortesão, cada um a seu modo, contam-no e analisam-no exemplarmente. O povo desaprova a união, mas o rei criou um expediente habilidoso marcando uma audiência no convento de S. Domingues para o dia seguinte, aproveitando esse momento de concentração naquele lugar para se ausentar de Lisboa, indo casar-se com Leonor Teles em Leça do Balio. A nova rainha não se fez esperar em mostrar os seus “dotes”, mandando decapitar os cabecilhas dos protestos.

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“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

O mal-estar nacional não se ficou por aqui; foi agravado com o casamento  da filha única do rei, D. Beatriz, com o rei de Castela.

Por morte de D. Fernando, seria Leonor Teles a assumir a regência até que D. Beatriz tivesse um filho e este atingisse os 14 anos, altura em que ocuparia o trono português.

Contudo, o que aconteceu foi que nas principais povoações de Portugal, pregoeiros foram mandados tocar a reunir por D. Beatriz. Isto afigurava-se, para o povo, uma perigosíssima ameaça à independência, pior ainda que a perspectiva de ser governado pela rainha-mãe, D. Leonor Teles.

Houve então tumultos e motins contra os mesmos pregoeiros em diversos locais, tendo sido Elvas uma dessas cidades.

Poderemos interrogar-nos porquê em Elvas, dada a proximidade com Espanha que aparentemente até pode favorecer a fusão dos sentimentos nacionais e atenuar o nacionalismo de cada lado da fronteira, tendo em conta a proximidade, as trocas a todos os níveis ao longo de séculos, o sentimento de familiaridade.

Mas não tinha nada a ver com isso. Dois povos podem quase fundir-se, podem conviver, amar, casar entre si. Mas há uma história que os distingue. E é na diferença que é mais valioso o amor. De todas as espécies. Não é eliminando as nações que se eliminam os nacionalismos exacerbados, pelo contrário. É conhecendo e respeitando e conservando as especificidades que se aprende o apreço pela diferença do outro, é na diferença que se valoriza cada um e mutuamente, ou, como uma vez escrevi, “mutuamante”. O povo de Elvas, como o de qualquer cidade da raia, era o que melhor sabia e sabe disto. E sabia que era preciso sermos dois para podermos aprender a sermos um sem nos dissolvermos.Sermos um, não porque alguém decreta, mas porque, na nossa diferença, amamos o outro tal como ele é: outro. Com a sua língua, as suas tradições, religiões, hábitos, etc. E isso é seguro, belo e enriquecedor para as duas partes. Agora, que as eleições europeias estão recentes, é bom termos claro que pertencer à Europa não é criar uma apressada e artificial uniformização. É conhecermo-nos melhor uns aos outros; é sabermos distinguir-nos uns dos outros; é, mesmo assim, apreciarmo-nos, respeitarmo-nos e aprendermos uns com os outros. Não esbatendo diferenças, pelo contrário: conhecendo-as, exaltando-as e agradecendo esta profunda riqueza que é a divina e misteriosa diversidade.

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.