As Nossas Verdades Absolutas

Paula Freire, opinião
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Celebra-se hoje o Dia Mundial das Competências dos Jovens, instituído pela Organização das Nações Unidas, no sentido de destacar a importância daquelas, num grupo que possui um papel essencial para o desenvolvimento da sociedade.

Aproveito, mais uma vez, a oportunidade da comemoração para enfatizar que a apreciação crítica que fazemos dos nossos jovens e dos valores que seguem e praticam, deveria muito partir do que, enquanto adultos, somos capazes de lhes transmitir.

Sem dúvida que a aquisição de competências para viver em sociedade requer aprendizagem.

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Uma aprendizagem não apenas técnica, mas igualmente promotora de um amadurecimento psicossocial, relembrando sempre que essa aprendizagem é contínua. Logo, cabe-nos a todos, cientes de que não somos, nem nunca seremos, de todo, donos de quaisquer absolutas verdades.

Teria, provavelmente, muita razão Bernardo Soares quando, a enfrentar os grandes desassossegos de Fernando Pessoa, escreveu que “o que vemos, não é o que vemos, senão o que somos”.

E acrescentava o famoso Carl Rogers, um dos principais representantes da corrente humanista na área da psicologia que, “não podemos mudar, não nos podemos afastar do que somos enquanto não aceitarmos profundamente o que somos”. Falava-nos também dessa competência humana de conseguirmos, efetivamente, ver o mundo com os olhos dos outros e não, como tanto acontece, vermos apenas o nosso mundo refletido nos olhos dos que nos rodeiam.

Aptidão que exige uma despretensão definida pelo escritor e psicanalista brasileiro Rubem Alves, como a humildade de admitirmos que “é possível que o outro veja mundos que nós não vemos”, ainda que isso implique “reconhecer que somos meio cegos…”.

Tudo isto me fez recordar aquela velha e conhecida história dos biscoitos roubados, sujeita a várias adaptações, e que se foi difundindo ao longo dos anos. Uma história sobre a importância de adotarmos novos modelos de pensamento, novos paradigmas sobre a realidade e as nossas verdades pessoais.

As Nossas Verdades AbsolutasA história que vos deixo ficar hoje como reflexão, numa versão escrita por alguém cujo nome já não guardo na memória.

Pergunto-vos se não serão muitas as vezes em que andamos por aí a comer biscoitos que são, afinal, propriedade alheia, sem consciência de que somos nós quem se encontra bastante longe da legítima verdade.

Suponha que é um fleumático cidadão britânico que se encontra no aeroporto de Frankfurt a aguardar o seu regresso a Londres.

 

São exatamente 15h00 e acabou de vir do México numa viagem em que não foi servido o almoço. Pega na sua bagagem, dirige-se a uma loja do aeroporto e compra um saco de biscoitos que mete na sua pasta, indo de seguida procurar um lugar para se sentar.

 

Descortina um espaço livre ao lado de um cavalheiro encorpado. Senta-se, abre a pasta que traz consigo e, então, mais calmamente, abre o saco de biscoitos que tinha comprado.

 

Após retirar o primeiro e começar a comê-lo, o homem ao seu lado mete igualmente a mão no saco e retira também um, comendo-o de seguida.

 

Estupefacto com a atitude dele, a sua educação, contudo, impede-o de se manifestar, permanecendo em silêncio. Provavelmente, um atrevido a gozar consigo… não vai descer ao seu nível!

 

Mete o segundo biscoito na boca e eis que o outro repete a façanha. Você contém, certamente, a fúria e retira o terceiro biscoito. O homem ao lado, serenamente, reitera o comportamento.

 

Você está mesmo inclinado a reagir… mas, porque está cansado e quer evitar confusões, contém-se uma vez mais. O seu semblante deixa, no entanto, perceber como se sente.

 

Falta apenas um biscoito dentro do saco. Eis senão quando o seu vizinho pega nele, parte-o ao meio e ficando com metade, oferece-lhe a outra metade a si.

 

O que pensa neste momento? Com toda a certeza encontra-se irritado, talvez furioso, pronto a disparar. Mas em vez disso, pega na sua pasta e afasta-se rapidamente.

 

Agora imagine que encontra um amigo seu no aeroporto e lhe conta o que acabou de lhe suceder. Como lhe descreveria o seu parceiro dos biscoitos?…

 

Entretanto, ainda com fome e aborrecido, volta à loja antes de entrar no avião e compra novo pacote de biscoitos. Ao abrir a pasta para o guardar, descobre a embalagem de biscoitos que tinha comprado anteriormente… intacta! Pois, tinha-se enganado. Apercebe-se que ao sentar-se no banco abrira, distraidamente, a pasta do seu vizinho que, por coincidência, era igual à sua e fora de lá que retirara os biscoitos que, em conclusão, eram dele…

 

Como descreveria, então, a outra pessoa?…

 

Coloque ainda a hipótese de, antes de ter descoberto a veracidade dos acontecimentos, entrar no avião e perceber que o seu companheiro de viagem seria precisamente o homem dos biscoitos. E que este, quando você se sentava, lhe sorria tranquilamente. O que pensaria dele?

 

Mas como reagiria se nesta situação já tivesse descoberto que quem tinha furtado os biscoitos fora você? O sorriso dele não seria alvo de uma interpretação, da sua parte, completamente diferente da anterior?…”.

Por vezes, a luz do conhecimento que julgamos ter não passa de uma sombra da nossa própria ignorância.

A propósito, referia Rubem Alves: “vemos pouco, vemos torto, vemos errado”.


A articulista actua como Colaboradora do Portal Elvasnews e o texto acima expressa somente o ponto de vista da autora, sendo o conteúdo de sua total responsabilidade.

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Paula Freire
Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside actualmente em Vila Nova de Gaia. Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas das Relações Humanas e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada. Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias. O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora de imagens de capa de obras poéticas lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021. Nos últimos anos, descobriu-se também no seu ‘amor’ pela arte da fotografia onde aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.