Início Opinião Nuno Pires Até para o ano, se o Senhor da Piedade quiser

Até para o ano, se o Senhor da Piedade quiser

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O cansaço e a ressaca da festa misturam-se hoje com a nostalgia de a ver terminar. Apesar da sensação de dever cumprido, de que tudo fizemos para aproveitar e manter viva a tradição, invadem-nos a saudades das noites no arraial, do reencontro dos abraços.

Cumpriu-se mais uma edição das festas da cidade e correu tudo como se esperava, o certame esteve igual a si mesmo (o que já não é pouco).

Este ano porém, contrariamente aos anteriores, e porque as eleições autárquicas ainda vem longe, as polémicas não tiveram expressão e todos nós em romaria acorremos aos pés do padroeiro para o louvar.

Nuno Franco Pires
Nuno Franco Pires, escritor

O principal aliado deste ano foi mesmo o São Pedro que tantas partidas nos tem pregado no passado. O sol foi rei e senhor e as temperaturas voltaram a registar valores superiores aos normais para a época, favorecendo a permanência no parque da Piedade até altas horas da madrugada.

Ainda não foi este ano que tivemos o prazer de experienciar um novo e mais digno pavimento que traga conforto a feirantes e visitantes.

Ainda não foi este ano vimos o certame estruturado, dividido por zonas, sem a habitual desorganização de géneros e produtos que simplifique a vida a quem vende e a quem compra.

Ainda não foi este ano que o tabuleiro superior teve a dignidade que merece, com barracas dispersas que não favorecem a visita de quem não passa.

Ainda não foi este ano que a iniciativa dos romeiros de Vila Boim se viu valorizada com outros elementos capazes de o tornar num cortejo etnográfico que valorize e dignifique a romaria.

Mas foi este ano que o cartaz de espetáculos me pareceu mais modesto e condizente com a condição financeira do município.

Continuando a não ser um evento perfeito, nem capaz de aproveitar todo o potencial que tem, a Feira de São Mateus tem tido a curiosa capacidade de se reinventar, graças à iniciativa de quem investe e se estabelece, ano após ano, e a quem a visita e a vivencia.

Antes como agora a Feira de São Mateus continua a cumprir a sua função, continua a ser privilegiado ponto de encontro da cidade e da região. Milhares vieram até Elvas, inundaram a cidade, espalharam carros por todos os arrabaldes ao certame, sentimos a vida latejar nas artérias do velho burgo.

Foram dez dias de intenso convívio, veio a família, os que estão fora, desafiaram-se os amigos a dar um salto à Piedade, provaram-se novos aromas, comeu-se de forma menos saudável, mas que raio “é São Mateus”. Beberam-se uns copos, algumas vezes mais do que o aconselhado, mas a alegria da festa impunha-o.

Durante dez dias todos os caminhos foram dar à Piedade, distribuímos afetos, sorrisos, abraçamos os que não vemos muitas vezes, os que voltaram, matamos saudades, de todos e de nós mesmos, da nossa essência.

Os Pendões voltaram à cidade, calaram-se os foguetes. A tarde foi-se mais cedo, amanhã é dia de trabalho. O outono instala-se para um par de meses e mergulhamos outra vez nas rotinas, deixamos de ver com tanta frequência os sorrisos do São Mateus, os nossos.

Invade-nos a saudade, a nostalgia. A vida continua, até ao próximo dia de Pendões.

Palavras leva-as o vento.

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Nuno Franco Pires
Nuno Franco Pires, nasceu em Elvas em 1975 e é um alentejano orgulhoso das suas raízes. Gosta de escrever – sempre gostou. Começou por pequenas histórias, onde os amigos de infância eram os protagonistas, passando pelo blog Dualidades (asdualidades.blogspot.com) do qual foi coautor e onde abordava temas que marcavam a actualidade. Cativam-no as relações humanas e a interacção entre as pessoas; é sobre elas que escreve. Tem participado e vários concursos literários tendo ganho uma menção honrosa no prémio Glória Marreiros, organizado pela Câmara Municipal de Portimão, com a novela "Amor entre muralhas" escrita em parceria. Participou na colectânea "Ei-los que partem" da editora Papel d' Arroz e com a chancela da Chiado Editora editou o seu primeiro romance, "Searas ao vento". Colaborou com a TV Guadiana, publicando semanalmente, pequenas histórias da sua autoria e incorpora o painel de tertulianos da rúbrica "Conversas de Barbearia" do blog Três Paixões.