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Avenida fantasma

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Planeada para ser uma das mais nobres artérias da cidade raiana, requalificada e inaugurada pelo à data Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, no dia em que Portugal e o mundo comemoravam em Elvas a Portugalidade, a Avenida do Dia de Portugal – 10 de Junho de 2013 está longe de apresentar a imagem desejada.

Via grande do quotidiano partilhado entre Elvas e Badajoz, os dois extremos da pseudo eurocidade, a referida avenida tem tantas bonitas rotundas como edifícios decrépitos à beira da ruína.

Para quem chega a Elvas pela fronteira do Caia, vizinho, forasteiro ou visitante ocasional, o cenário oferecido não é o mais desejado e muito menos condizente com a classificação da Unesco que a cidade ostenta.

São vários os edifícios em que pouco mais resta que a estrutura, verdadeiras carcaças onde já foi tirado tudo o humanamente possível, oferecendo a quem passa uma imagem de abandono e desleixo que pode impressionar pela negativa os mais atentos.

Nuno Franco Pires
Nuno Franco Pires, escritor

Outrora fábricas, stands automóveis ou armazéns, hoje esqueletos de betão onde tudo foi levado: portas, telhas, cobre e todos os materiais possíveis e imagináveis.

Desconheço quem são os proprietários, certamente privados, desconheço o poder da autarquia em semelhante contexto mas urge que algo se faça.

Como se já não bastasse o abandono a que o Caia foi votado e que impressiona, pela negativa, os transeuntes, a ruína estende-se um par de quilómetros mais até à entrada da cidade Património Mundial, diminuindo-nos.

Cartão-de-visita para milhares de cidadãos […] não cumpre a missão que se esperava dela

Cartão-de-visita para milhares de cidadãos espanhóis e turistas de outras nacionalidades que anualmente a percorrem, não cumpre a missão que se esperava dela. Deveria ser um espaço agradável, vivo, dinâmico, preparando quem chega para o esplendor do património edificado que os espera.

Nada disso.

Percorre-se com horror, desejando que termine depressa e se chegue a bom porto, apesar da desconfiança que gera para quem vem de novo e certamente receará não encontrar o que procura.

Tal como no centro histórico se decoraram montras sem vida com bonitos desenhos, embelezando-as e disfarçando o vazio a que as votaram, julgo que algo deveria também ser feito para, não sendo possível resolver a questão, minimizasse o impacto.

Em Badajoz os portugueses são recebidos por uma estátua feminina de braços abertos. Em Elvas o visitante perguntar-se-à em que cenário de guerra veio meter-se.

Muitas vezes, se não na maioria delas, o pormenor faz a diferença.

Palavras leva-as o vento.

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Nuno Franco Pires
Nuno Franco Pires, nasceu em Elvas em 1975 e é um alentejano orgulhoso das suas raízes. Gosta de escrever – sempre gostou. Começou por pequenas histórias, onde os amigos de infância eram os protagonistas, passando pelo blog Dualidades (asdualidades.blogspot.com) do qual foi coautor e onde abordava temas que marcavam a actualidade. Cativam-no as relações humanas e a interacção entre as pessoas; é sobre elas que escreve. Tem participado e vários concursos literários tendo ganho uma menção honrosa no prémio Glória Marreiros, organizado pela Câmara Municipal de Portimão, com a novela "Amor entre muralhas" escrita em parceria. Participou na colectânea "Ei-los que partem" da editora Papel d' Arroz e com a chancela da Chiado Editora editou o seu primeiro romance, "Searas ao vento". Colaborou com a TV Guadiana, publicando semanalmente, pequenas histórias da sua autoria e incorpora o painel de tertulianos da rúbrica "Conversas de Barbearia" do blog Três Paixões.