Opinião - Risoleta Pinto Pedro
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As mães, quando têm netos, por vezes passam aparentemente a ligar menos aos filhos, o que vale é que os filhos estão tão apaixonados pelos filhos que não só não levam a mal, como levam a bem…

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Tive a sorte de conhecer e conviver com os meus quatro avós e ainda uma bisavó e alguns tios-avós. Quanto aos meus quatro avós, não vou afirmar que fui igualmente próxima de todos, que todos me mimaram da mesma maneira, pois cada um teve uma atitude diferente para comigo.

Um dos meus avós comunicava comigo pelo silêncio, o outro pela fala. Um olhava para mim, fazia-me sentir que eu existia e fazia as suas tarefas na minha companhia, cortava a lenha, levava-me à fonte empoleirada no carrinho e arranjava a horta. Quase sempre em silêncio, mas sorrindo ou rindo baixinho. Dava pequeninas gargalhadas tímidas. Nunca ralhou comigo. Vivia na Rua Nova do Poente. Cada vez aprecio mais o papel que teve junto de mim. E faz-me falta. O outro avô, o da Rua do Lavadouro, passava o tempo a ensinar-me coisas que depois me perguntava insistentemente: das luas e marés à electricidade, passando pelos países de todo o mundo e respectivas capitais. Tinha de saber tudo, e realmente sabia. Também me ensinou a atirar ao alvo com uma espingarda. Era muito crítico, e não deixava escapar uma fraqueza. A sua ironia era demolidora. Cada vez sinto mais a importância do papel que teve junto de mim.

ChávenasA minha avó paterna, Ana Carlota, achava graça a tudo o que eu fazia, mesmo que fosse o maior disparate. Eu tinha um capital inesgotável na sua consideração. Fazia sempre, para as minhas refeições, o que eu mais apreciava, que servia num tabuleiro sobre uma mesinha baixa, só para mim, com talheres pequenos em prata. A acompanhar, um cálice de vinho do Porto “para dar forças”. Ao lanche, uma gemada bem amarelinha com açúcar amarelo numa chávena amarela. Sol sobre sol dentro de sol. Seria uma espécie de Montessori, se não fosse o vinho do Porto. Levava-me ao campo para fazer colares de camomila. Era totalmente surda, mas estava sempre a rir e a dizer coisas engraçadas, farta-se de conversar; com ela, a vida era uma festa. Eu achava que ela não tratava o meu pai, seu filho, com tantos mimos como os que me dedicava, até ralhava com ele, às vezes. Era estranho, porque o meu pai já era um adulto, casado e pai de filha.

Desenho-EuA outra avó, apesar de me dar pão com toucinho e banha com açúcar por cima, quando eu fazia intervalos das brincadeiras, não sorria tanto, parecia ter mais preocupações, mas vim a perceber que no tocante a preocupações não era bem como eu pensava, as máscaras funcionavam na perfeição. Era mais austera e eu não estava autorizada a fazer tudo. Sentia-me menos à vontade com ela, mas contava-me histórias extraordinárias, de uma imaginação prodigiosa, até quase ao horror, que talvez tenham feito de mim uma escritora. Evitando, contudo, a horror. Sempre achei que ela tinha mais paciência para a minha mãe do que para mim. Eram muito próximas.

Eu passava o tempo onde me divertia mais. Eram assim as minhas férias em S. Vicente e Ventosa. Quando um avô estava cá em baixo e íamos treinar o tiro ao alvo, lá estava eu. Quando não se passava nada e já estava cansada da escola informal, ia até lá acima. Fui uma criança com imensa sorte e quase infinita possibilidade de escolha. Onde quer que estivesse, era bom, mas por vezes num ou noutro sítio, era maravilhoso.

Hoje, sei que todos foram igualmente importantes. Sem um deles eu estaria definitivamente amputada em algo. Tenho igual saudade de todos, igual amor, igual gratidão, igual respeito, igual admiração.

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Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.