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Balanço do São Mateus 2017

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Santuário do Senhor Jesus da Piedade ©José Silva
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Ainda ontem os Pendões desceram da cidade e não tarda estão de volta à Antiga Sé, dando por encerrada mais uma edição das festas da cidade.

Pelo meio mais do mesmo, do bom e do mau

O Sâo Pedro deu a ajuda, nem sempre habitual, e a meteorologia engrossou o número de visitantes ao parque da Piedade.

A proximidade com as eleições autárquicas fazia prever um bom cartaz de espetáculos e as suspeitas confirmaram-se. A tenda ao fundo da avenida recebeu sete sonantes concertos, com duas casas cheias e a lotação a esgotar. Um ano mais especulam-se os custos tanto do espaço, cuja estrutura se manteve na Piedade desde Maio por ocasião da Semana da Juventude, como dos artistas contratados. A inexistência de um espaço edificado para receber este tipo de eventos encarece a coisa. Continuo a achar que o Coliseu, situado a escassos metros, poderia colmatar essa lacuna, com menores custos, tal como acontece nos espetáculos tauromáquicos.

A praça da feira surgiu este ano coberta, prevenindo as habituais chuvas que este ano o São Pedro não enviou. Percebo a intenção, mas acho que o espaço perdeu com a modificação. Tendo-se destacado como um dos pontos altos da edição do ano passado, gostei menos da nova configuração, apesar da elevada qualidade dos espetáculos que por lá tiveram lugar. Parabéns a todos os artistas que dignificaram a cultura do concelho.

Muitos me comentaram que a Procissão dos Pendões parecia mais pequena este ano. Integrei o cortejo, como de costume, e não tive essa perceção. Pareceu-me, no entanto, que havia menos gente a assistir à sua passagem, o que não me espanta tendo em conta que se tratava de uma quarta-feira. Escola e trabalho, a quanto obrigam.

Nuno Franco Pires
Nuno Franco Pires, escritor

Quando finalmente a identidade da romaria parece clamar cada vez mais alto e muitos são os que se movem para a valorizar e fazer renascer, também o desfile dos Romeiros de Vila Boim me pareceu menor este ano e é pena porque tem vindo a afirmar-se como um dos pontos altos do dia de Pendões. A rua da Cadeia encheu-se de miúdos e graúdos para os ver passar. O passado e o futuro de mãos dadas para garantir a continuidade da tradição.

Quanto ao resto, mais do mesmo. O mesmo pavimento obsoleto que torna desconfortável a circulação e que nos faz mergulhar numa nuvem de pó, os mesmos espaços por cuidar, o coreto velho pelo tempo, o lago longe dos seus tempos áureos, os buchos a requerer a dignidade de outrora. Lamento ainda que o pórtico da feira não preenchesse a totalidade da área de escadaria que permite o acesso ao recinto. Faltou-lhe um “bocadinho assim”. Uma questão de números, certamente.

O tabuleiro superior continua sem rumo. A distribuição dos espaços mantém-se idêntica há uns anos atrás apesar de, em virtude do novo formato noturno assegurado pelo município, a animação se ter deslocado para o inferior. Deveria ser repensado, reajustado às novas necessidades, mas tudo isso se prende com uma estratégia comercial que a feira continua a não ter, o delinear das áreas onde, com certeza, a gastronomia e o artesanato deveriam ganhar dimensão.

Apesar disso tudo, a fé ao Senhor Jesus da Piedade continua a mover um povo inteiro, dos dois lados da fronteira, e atrai dezenas de milhares de visitantes durante os dias que compõem o evento. Contrariamente à impressão que tive em anos anteriores, julgo que os comerciantes conseguiram fazer negócio. A oferta de comes e bebes aumentou exponencialmente e a procura correspondeu positivamente. As louças continuam a fazer as delícias do cliente espanhol, os stands automóveis tem a sua montra privilegiada e os carroceis agradam aos mais novos. E é conseguido na base da carolice, imaginem se o evento fosse pensado à séria. Tanto potencial desperdiçado.

No domingo os Pendões regressam à cidade, protagonizando o momento mais bucólico de toda a romaria, o encerramento do ciclo, o retomar da vida depois da festa.

O São Mateus 2017 cumpre a sua função, foi o ponto de encontro dos elvenses e forasteiros, polo de diversão e convívio. As forças políticas, entretidas a digladiarem-se, não tiveram muito tempo para apontar o dedo ao positivo e negativo da festa, talvez receosos por melindrar a vox populi que no próximo domingo lhes garantirá o voto, ou não.

Para o ano há mais, se o Senhor da Piedade o permitir. Cá estaremos para cumprir a tradição, se tivermos vida e saúde.

Palavras leva-as o vento.

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Nuno Franco Pires
Nuno Franco Pires, nasceu em Elvas em 1975 e é um alentejano orgulhoso das suas raízes. Gosta de escrever – sempre gostou. Começou por pequenas histórias, onde os amigos de infância eram os protagonistas, passando pelo blog Dualidades (asdualidades.blogspot.com) do qual foi coautor e onde abordava temas que marcavam a actualidade. Cativam-no as relações humanas e a interacção entre as pessoas; é sobre elas que escreve. Tem participado e vários concursos literários tendo ganho uma menção honrosa no prémio Glória Marreiros, organizado pela Câmara Municipal de Portimão, com a novela "Amor entre muralhas" escrita em parceria. Participou na colectânea "Ei-los que partem" da editora Papel d' Arroz e com a chancela da Chiado Editora editou o seu primeiro romance, "Searas ao vento". Colaborou com a TV Guadiana, publicando semanalmente, pequenas histórias da sua autoria e incorpora o painel de tertulianos da rúbrica "Conversas de Barbearia" do blog Três Paixões.