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Os meus avós paternos, Miguel e Ana Carlota, viviam ao cimo da Rua Nova do Poente, no Povo de S. Vicente. Dois anjos que me recebiam nas férias como se não houvesse amanhã. Era tal a gentileza e dedicação, que era fácil imaginá-los depois de regressar a casa, a tantos quilómetros de distância, sentados à soleira da porta, à minha espera. Não eram permissivos, e eu tinha um profundo respeito por eles e pelo espaço e entrava naquela casa como quem entra num templo. Via-os como sacerdotes daquele lugar, para mim, de alegria. Sem estas palavras, mas hoje reconheço que o sentimento era este. A Rua Nova do Poente talvez tivesse sido das últimas a ser construídas, mas certamente muito antes do Bairro Novo, esse sim, com um ar mais moderno. As casas desta Rua Nova tinham (têm) uma feição completamente tradicional. As casas do Bairro Novo, se a memória não me falha, e é preciso desconfiar da distância temporal, já tinham mais ar de vivenda.

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“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Sempre gostei do nome desta rua, mas hei-de falar dos nomes de outras que também enchem a minha história de menina e o meu imaginário. O que me ocorria sobre o nome da rua era uma espécie de paradoxo: sendo o poente algo tão antigo como o Sol ou como a Terra, observá-lo de uma Rua Nova era como renovar o poente em todos os crepúsculos, e com esta renovação, renovar o nascente em cada manhã. Pelo menos renovar-me a mim e à minha oportunidade de me renovar, menina nessa altura demasiado introspectiva.

Nunca se via ninguém, era Agosto, a sensação deliciosamente desértica; era como ir ao deserto sem sair do Alentejo. Eu subia e descia a rua e sentia-me a única pessoa viva, mas sabia que lá dentro e provavelmente a observar-me, havia olhos abrigados do calor.

Por altura do Carnaval também lá ia, era o tempo das camomilas. Ao cimo da Rua Nova do Poente havia a planície; e em Fevereiro, Março, esta estava cheia de pequeninas camomilas brancas ou amarelas. A minha avó ensinou-me a cosê-las umas às outras com uma agulha e um fio e eu entretinha-me a fazer grandes colares e pulseiras para ambas.

A rua estava sempre impecavelmente limpa, quase se podia comer sobre ela. Esta é uma das características e riquezas do Alentejo. Limpeza absoluta, brancura cintilante, ordem e  perfume. Em casa da minha avó o perfume era o das alfazemas. Na água de colónia, no sabonete e nas gavetas da roupa.

Por vezes, subiam a rua camionetas de carga com certo tipo de mercadorias de que iam deixando cair vestígios atrás de si; a rua era (ligeiramente?, como os planos e as dimensões do passado se alteram na nossa memória…) a subir, fácil era deslizar alguma coisa para o chão. Mas quando a camioneta chegava lá acima todo o lixo tinha desaparecido, como por encanto, do chão. Do silêncio das casas saiam uma espécie de fadas, armadas não de varinha de condão, mas de pá e vassoura, e que imediatamente devolviam a ordem, a limpeza e a harmonia à rua destinada a observar o Sol Poente.

Sendo inquestionável a influência cultural islâmica em Portugal, sobretudo no Sul, e evidentemente no Alentejo, ficam por vezes esquecidas outras fortes influências, como a fenícia e a judaica, posteriormente marrana, ou dos cristãos-novos. Tenho, desde sempre, o hábito de varrer ou limpar a casa a partir da porta da rua para dentro e sempre me fez confusão ver deitar lixo para as entradas das casas. Só recentemente compreendi este vestígio do inconsciente colectivo em mim, que é o mesmo, creio, que está presente nos hábitos de limpeza do Alentejo.

Veja o leitor o que encontrei numa página sobre a cultura judaica:

«Um costume ainda muito comum hoje em dia era varrer o chão longe da porta, ou varrer a casa de fora pra dentro, com a crença de que se o contrário fosse feito as visitas não voltariam mais. Na verdade esta prática está ligada ao respeito pela Mezuzah, que era pendurada nos portais de entrada, e passar o lixo por ela seria um sacrilégio.» (In: Blogue “Coisas judaicas”)

Também no magnífico romance de Miguel Real, A Cidade do Fim, uma família é denunciada por ter hábitos judaicos, nomeadamente varrer «a casa de fora para dentro».

Era o também chamado “varrer a casa às avessas”, o que significava “às avessas dos cristãos-velhos”. Num documento do século XVII explica-se que esse era um dos costumes dos judeus espanhóis. E que perto estamos de Espanha… É informação encontrada num livro de Lina Ferreira da Silva: A Inquisição contra as Mulheres.

Este hábito, que terá a origem religiosa acima explicada, demonstra, também, um profundo respeito impregnado ao longo de séculos, por aquilo que é um espaço público, costume inquestionavelmente civilizado. Se o estendermos ao planeta Terra e imitarmos o comportamento das senhoras da Rua Nova do Poente, imaginem as consequências que isso não terá!

Por outro lado, a minha avó arranjou uma espécie de jóias de esconder que eu usava por dentro da roupa presas com um alfinete, onde vários símbolos me “protegiam”, e quem sabe se não o fizeram?, a verdade é que cheguei íntegra ao futuro e apesar de já não os usar, pelo menos visivelmente, talvez se me tenham colado à pele e continuem a vibrar a partir do amor vindo do passado para todos os futuros. Que estejam na luz os que já partiram. Da pequena colecção de ícones fazia parte uma estrela de Salomão, símbolo mais judaico é difícil encontrar…

Aonde eu queria chegar com isto tudo já se perdeu pelo caminho da crónica, mas o sentimento que resta é a lembrança de uma rua impecavelmente limpa como tapete de templo, levando ao cimo de uma rua ou altar, de onde se pode observar o Sol e colher camomilas, essas flores da tranquilidade, para colocar ao pescoço, esse lugar da expressão.

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.