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O Cancioneiro de Elvas é um dos quatro cancioneiros portugueses da Renascença conhecidos. Vem-lhe o nome de ter sido encontrado na Biblioteca Municipal de Elvas, em 1928, ainda que o seu conteúdo não esteja directamente relacionado com a cidade, nem sequer com o Alentejo. É um cancioneiro nacional. Contudo, não deixa de ser significativo que um cancioneiro da nossa música seiscentista tenha sido encontrado precisamente numa cidade fronteiriça, como a lembrar um passado em que ainda se escrevia parcialmente em castelhano. De facto, uma considerável parte das composições estão em castelhano, como em castelhano escreveu também Gil Vicente, sem deixar de ser português.

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Uma das características de uma certa poesia da época medieval (e seiscentos está ainda a sair dela…) é a sua não existência sem a música. Os poetas também eram músicos e escreviam os poemas para serem cantados e tocados. Este, como os outros cancioneiros, fixa os textos com as notações musicais, embora algumas tenham desaparecido. Mas temos a certeza de que existiam.

Conheço algumas destas composições por tê-las cantado. Num tempo em que ainda tinha tempo para cantar. Talvez porque era uma prioridade. Outras se sucederam. Para além de serem encantadoras, elevam o espírito de quem as canta e de quem as ouve. E, apesar do que afirmei logo no início da crónica, remetem-me, com muita força, para o Alentejo.

Uma delas, “A la villa voy/ de la villa vengo” leva-me até uma menina adolescente que não conheci, embora já estivesse dentro dela. Sei, por ter lido, que uma mulher transporta dentro de si, desde a fecundação, todos os óvulos que vai ter, o que significa que, desde a fecundação da minha mãe, eu já habitava com ela/nela. Talvez por isso não me seja difícil recordá-la/imaginá-la menina, adolescente e jovem, a caminho de Elvas, com o pai, meu avô, dirigindo-se a Badajoz, ao médico, à farmácia, às lojas… porque aquela que viria a ser eu, ainda que não existindo, já estava com ela. De camioneta, de motorizada. Vivendo em S. Vicente, ia até à cidade de Elvas, daí até Badajoz, de lá regressava a Elvas e desta a casa.

«si no son amores/ no se q̃ me tengo», continua a cantiga. Não sei o que tenho… É uma cantiga de amor, na linha da nossa tradição medieval do século XII. Ou de amigo, a designação que adoptavam estas cantigas quando o sujeito poético era a rapariga. Imagino esta menina, adolescente, jovem, a caminho das cidades, de regresso das cidades à sua aldeia, sabendo que o que sentia era a emoção do amor. E só poderia ser isso, nesta idade.

Uma outra composição deste Cancioneiro que também cantei, é um apelo:

“Venid a sospirar/ al verde prado”. Prados não abundavam no Alentejo, mas acredito que as searas, na sua forma verde ou mesmo mais dourada, seriam o equivalente perfeito para esconder os suspiros de uma adolescente, de amores possivelmente contrariados, como frequentemente acontecia.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Entre o prado e a vila ou a cidade, os amores, os suspiros das jovens, desde o século XII, passando pelas do século XVI, e as da primeira metade do século XX, como era o caso da minha menina mãe, serão eternos. Porque representam o desterro de que sofre a humanidade, a dor da separação entre o ser e o amado, entre os humanos e a inteligência que os criou. Drama vivido com mais sinceridade pelas mulheres, desde a adolescência, porque com maior entrega, porque de coração mais aberto, elas as grandes inspiradoras dos trovadores, dos poetas e de todos aqueles que das mais diversas formas, com poesia, música e artes plásticas, expressaram ou deram voz às anónimas vozes entregues aos suspiros do amor.

Hoje, no ocidente, vive-se uma maior liberdade e, em princípio, as jovens europeias já não são contrariadas nas suas escolhas. Mas não confundamos a nuvem com Juno ou o mapa com o território, porque numa enorme parte do mundo as mulheres continuam a não ser donas de si mesmas e a não terem o direito de fazer ouvir a sua voz ou de expressarem os seus desejos.  Mesmo nos nossos países, existem comunidades que vivem ainda sob o jugo do poder patriarcal e ainda quando isso não acontece de forma explícita, a submissão foi tão longa e tão pesada e a libertação é ainda tão recente e por vezes tão apenas aparente, que o arquétipo da opressão existe dentro do próprio oprimido e se à primeira vista cada jovem é livre de escolher quem quer, emocionalmente somos ainda tão primitivos, que nos falta o essencial, muito bem traduzido numa canção contemporânea: «Sei que posso querer tudo/mas nem tudo me convém”. Fizemos leis, libertámos os escravos, libertámos as mulheres, mas nem os legisladores, nem os revolucionários aprenderam a ler nos corações próprios e alheios. Isso faz de todos nós analfabetos emocionais. Continuamos a suspirar por aquilo que não temos, a desejar o que não podemos ter e a não ver o que nos convém e está mesmo à frente dos nossos olhos. Como na composição do Cancioneiro de Elvas, define-nos o verso: «no se q̃ me tengo». Não sei o que tenho. E nisto somos iguais, portugueses, espanhóis e todos os outros. Daí a presença do Cancioneiro de Elvas, durante séculos oculto, praticamente na linha de separação ibérica, a que tanto separa como liga Portugal e Espanha. Talvez tenhamos algum conhecimento a levar, conjuntamente, ao mundo. Depois de termos aprendido a conhecermo-nos melhor.