Família
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O continuado convívio que temos vindo a desenvolver ao longo deste ano permite-me, caro leitor, partilhar consigo alguns pensamentos íntimos.

Tive a sorte de conhecer e conviver, até à idade adulta, com os meus quatro avós, todos de São Vicente. A minha família pauta-se (com uma ou outra excepção) pela longevidade. Este prolongamento do convívio ao longo da vida acresce, igualmente, mais saudades, mas também isso não é líquido. Como poderemos comparar a intensidade da saudade de alguém que mal conhecemos com a de alguém com quem largamente convivemos?

Acontece que ocorre no dia 1 de Fevereiro uma dupla efeméride a que atribuo especial relevo, sem contudo conseguir compreendê-la.

Risoleta, Avô Zé Pinto
Avô Zé Pinto

Neste dia faria anos o meu avô materno, José Francisco Pinto. No mesmo dia partiu, em 2000, o meu avô paterno, Miguel António Pedro. Em trezentos e sessenta e cinco dias aconteceu coincidirem no dia da viagem de vinda e da viagem de ida, eliminando trezenta e sessenta e quatro outras possibilidades. É claro que isto acontece com milhares, milhões de pessoas. O que torna o facto assinalável é terem os dois a mesma neta, logo, o facto torna-se significativo talvez não para eles, mas especialmente para mim. Que leitura fazer destes dois viajantes no primeiro dia do mês da febre que é o encolhido Februo, Fevereiro?

Avô Miguel
Avô Miguel

Acaso?, dirá o leitor. Não digo que não. Nunca desminto ninguém. É uma possibilidade. Mas há outra coisa: é que a este segue-se o dia de Nossa Senhora das Candeias. Bem precisa de luz, este mês tão carente, tão assaltado, tão roubado. A referida Senhora é aquela que é a mais invocada pelos cegos. Assim como prodigaliza a luz do ver, a Senhora das Candeias poderá, também, proporcionar a outra visão maior que permite vislumbrar além das aparências. Esse olhar de profundidade, para lá do véu, apenas é possível através do paradoxo. E que paradoxo maior do que o da vida e da morte? Isto é, da eternidade. Muitas maneiras há de deixar recados aos que ficam, o mais grandioso é o que fica escrito com a própria morte, com a própria vida. Terríveis e arrepiantes mistérios cuja travessia necessitamos fazer, se queremos encontrar alguma luz. Quanto mais não seja a luz que se faz quando descobrimos que não sabemos nada.

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.