Início Opinião Graça Amiguinho O Compadre Alentejano (2)

O Compadre Alentejano (2)

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©Elvasnews
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Como todos tão bem sabemos, esta forma de tratamento é muito usual entre nós. Tão interessante e fora do comum que ultrapassou fronteiras e foram dadas a conhecer ao mundo a nossa «paciência», «o nosso vagar no falar», »a nossa pacatez»!

Muitas anedotas sobre nós, alentejanos, se contam e, muitas delas, são da nossa autoria. Temos o condão, talvez único, no nosso Portugal, de sabermos rir de nós próprios.

Porém, quando «alguém» tem a ousadia de nos ofender no que consideramos ser sagrado e intocável, sai de nós a tal «fera» que o «Raposo» diz ver «NO OLHAR DO ALENTEJANO QUE SE VAI SUICIDAR»!

Quantas recordações, quantas saudades foram acordadas em nós quando este «degenerado escritor» nos atacou!

Saí da minha Aldeia há 47 anos e, cada dia que passa, mais o meu coração se prende ao meu amado Alentejo!

O ALENTEJO APROXIMOU-SE DE JUDAS E AFASTOU-SE DE PEDRO

Esta frase bate tão forte no meu íntimo que nem sei medir a revolta que nele se gerou.

Que sabe este escritor da História da Salvação? Que sabe ele do percurso de fé dos alentejanos? O que conhece ele das gentes do norte de Portugal para os usar como pedra de arremesso contra o Alentejo, alegando que «O NORTE ESCOLHEU PEDRO»?

Não quero fazer uma apologia da santidade da minha gente mas, pela minha experiência de vida, sei que almas boas e más estão em toda a parte. A natureza não as dividiu.

Dos meus familiares, todos naturais do Alentejo, com quem cresci, fui amada e com quem muito aprendi, grandes exemplos de bondade, serenidade e capacidade de trabalho recebi!

“Canto a minha terra, a minha gente ! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho
“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo, a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho

Não sou proveniente de uma família abastada nem erudita. Os meus antepassados foram humildes trabalhadores do campo, criadores e guardadores de gado.

Fui criada por uns tios-avós que, por não terem filhos, fizeram da minha mãe a sua filha e dos seus filhos, seus netos. Pessoas nascidas há mais de 130 anos, analfabetos mas de corações mais puros que o azul do nosso céu!

O tio-avô, António Rolinha, era guardador de porcos no Monte de Alcobaça, perto de Elvas. Era um homem bondoso, amigo de todos e, quando de 15 em 15 dias vinha a casa, trazia sempre o que lhe restava na corna, queijo ou toucinho. Era um artesão. Esculpia pedaços de cortiça, a canivete, nas suas horas de descanso, na herdade. Guardo alguns dos seus trabalhos com o maior carinho.

Estes tios foram os meus antepassados com vida mais longa (93 e 97 anos)! Os seus últimos anos de vida passaram-nos comigo, aqui no Norte, sem nunca terem complicado a minha vida porque a bondade e doçura de trato acompanhou-os até ao último minuto.

“O ESTADO DA NATUREZA NORMALIZA OU NATURALIZA TODAS AS FORMAS DE VIOLÊNCIA (SUICÍDIO INCLUÍDO)”

“CRIA DISTÂNCIA ENTRE O ALENTEJANO E A COMUNIDADE E ACIMA DE TUDO ENTRE O ALENTEJANO E A PRÓPRIA FAMÍLIA”

“ESTA DESCONFIANÇA OU FALTA DE À VONTADE COM OS PRÓPRIOS FAMILIARES REVELA-SE P.EX. NA VIUVEZ DOS HOMENS”

O meu pai ficou viúvo aos 75 anos e, vivendo até aos 84 anos também comigo, envelheceu a meu lado, com todo o nosso apoio e carinho. Era um homem que prezava a sua independência pois até gostava de cozinhar, o que, com a idade, ficou impossibilitado de fazer. Quando acamou, fui eu que cuidei dele. Nunca um dia sequer, o meu pai, alentejano de gema, me repudiou ou me inquietou, obedecendo sempre aos meus apelos e conselhos!

Isto comprova como são falsos os testemunhos do escritor que repudia a sua naturalidade.

O que conheci e ainda hoje me é dado saber dos familiares e amigos que tenho no Alentejo, os alentejanos continuam sendo boas pessoas, humildes e religiosas!

Certamente esse jovem teve pouca sorte na família que lhe deu o ser. Raízes podres não podem dar bom fruto!

O povo alentejano deu o seu melhor contributo, ao longo dos séculos, semeando e ceifando o trigo que muitos comiam!

O povo alentejano tem o grande dom de encantar o mundo com a sua peculiar forma de cantar!

O povo Alentejano é naturalmente um artesão!

Todos nos orgulhamos dos nossos «COMPADRES ALENTEJANOS» que, da forma mais bela elevaram o Cante Alentejano, Património Imaterial da Humanidade, e a Arte Chocalheira ao mesmo patamar da glória da Humanidade.

Nunca poderemos esquecer o orgulho que sentimos quando o grande escritor alentejano, José Saramago, recebeu, pela primeira vez na nossa história literária, o PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA!

Quantos poetas, cantores e escritores têm imortalizado o nosso querido ALENTEJO e a nossa GENTE!

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