Opinião - Risoleta Pinto Pedro
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Às vezes conhecemos pessoas, ou ouvimos falar de pessoas conhecidas, como sendo cidadãs do mundo, como se não tivessem terra. Penso que estas pessoas se tornaram a tal ponto viajantes do globo que é como se tivessem perdido o lastro. Vê-se isso como uma qualidade e só como qualidade; e ao contrário, como se não se ser um cidadão do mundo pudesse ser, de alguma forma, a ausência dessa qualidade. Existem alguns equívocos associados a este conceito. Os judeus e os marranos, obrigados a serem cidadãos do mundo por decreto de expulsão e sob ameaça de extinção, passaram a sê-lo, contudo nunca esqueceram as suas raízes. É o caso de Pierre Assouline, que após epopeica deslocação da família por gerações e gerações em África e por França, neste último país se radicou e naturalizou, sem contudo alguma vez “esquecer” a Espanha de onde há séculos fora expulso nas pessoas dos seus antepassados, que ele designa por “ancêtres”, a cuja “casa” procura regressar. Outros buscaram e reconstruiram outra “casa”, a ainda mítica Israel, onde procuram, igualmente, ainda mais antigas raízes. Outros ainda, como os palestinianos, colam-se ao chão para não serem expulsos da sua terra. Assunto complexo que não caberia nesta crónica, a não ser em termos dicotómicos ou polarizados, que não são da minha simpatia.

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Acontece que ignorarmos o nosso passado, as origens, as raízes, não nos torna, necessariamente, cidadãos do mundo. Para além de que é impossível livrarmo-nos do que nos está nas células, sendo que é possível sentir essa presença sem que nos aprisione. Bem podemos fugir para longe, que o nosso Adn persegue-nos como uma sombra. E, como se sabe, quanto mais se recua no Adn, maior complexidade de lugares, sangue, famílias, cores, história e tradições encontramos. É nessa profundíssima camada que podemos sentir-nos cidadãos do mundo, que o somos naturalmente, mesmo sem sairmos do lugar onde nascemos, pois transportamos o mundo em nós.

O actual apreço hoje atribuído ao conceito, ao globalismo genético e o desprezo pelo factor identidade deve-se, sem dúvida, a exageros histéricos de comunhão identitária que têm conduzido a excomunhões raciais e nacionais, a nacionalismos exclusivistas, social, política e humanamente perigosos, como já foi excessivamente provado.

Acontece que a identidade não é um conceito estático, mas como Pierre Assouline defende, dinâmico, e acrescento, não tem de ser exclusivista, mas integrador. Ao conhecer, valorizar e respeitar a minha identidade, dou mais valor à identidade do outro e assim tornamos o mundo muito maior do que a pequena aldeia em que o globalismo ou os nacionalismos a querem transformar. Assim, não há que recear a busca das origens, não há que recear o amor pela Pátria e Mátria, o conhecimento da nossa cultura e tradições. Se eu for “apenas” uma cidadã do mundo, que tenho eu para trocar com o mundo? Mas quando, cidadãos do mundo e daqui, viajarmos, poderemos voltar a realizar o que os portugueses sempre fizeram, intercâmbio de ideias, matérias e valores, sabendo que nas águas subterrâneas todos nos encontramos. Aí, deixamos de ser cidadãos do mundo para nos tornarmos cidadãos do imenso fundo onde mergulham as diferentes raízes.

Por isso, vou alimentando as várias raízes que fui deixando por todas as terras onde vivi com os meus pais, mas com um carinho especial, os subterrâneos que aqui sustentam as searas em cuja proximidade nasci, hoje alimentadas pelo pó em que se desfizeram já quase todos os que contribuíram para que me sentisse da planície, e por isso eternamente vivem.

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Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.