Contagem decrescente

@Elvasnews/Arquivo
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Apesar do verão parecer estar a despedir-se, dos dias ameaçarem ser mais curtos ou do bom tempo querer dar lugar às primeiras chuvas, o coração dos elvenses vibra com a chegada do mês grande: Setembro.

Não se explica. Sente-se. É o que nos distingue, o que nos torna elvenses.

Começa a cheirar a São Mateus e o aroma inebria-nos. Invade-nos a expetativa dos dias de festa.

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E apesar das últimas edições terem vindo a denotar alguma perda de fulgor, nem isso nos demove de desejar que a festa chegue e nos traga mais do mesmo: família, amigos, reencontros, memórias, nostalgia, o ciclo da vida.

Depois de testado o novo formato de espetáculos, como já o ano passado conhecemos, e parecendo estar a Confraria mais recetiva à mudança, a edição deste ano é aguardada com expetativa. E o município sabe-o.

Nesse sentido, e tal como nos grandes eventos que se realizam a nível nacional, foi convocada na passada sexta-feira uma conferência de imprensa para apresentar o cartaz dos espetáculos. Diversificado e atrativo, tem condições para agradar a um vasto público: jovens, adultos e seniores. Há para todos os gostos e paladares. Todos terão direito a uma ou duas noites para apreciar os cantores da sua preferência.

Nuno Franco Pires
Nuno Franco Pires, escritor

Em alternativa, foi apresentado um segundo palco de espetáculos destinado à música popular, com tónica nos artistas da terra, bem como a reedição dos bailes de São Mateus, já realizados o ano passado, e que à minha geração pouco podem dizer mas que muitas memórias trarão às gerações que nos antecedem. Este segundo espaço recebeu o nome de “Praça da Feira” e promete trazer também artesanato e gastronomia.

Parece-me que, finalmente, estamos no bom caminho. Já não era sem tempo.

Com quase quatro séculos de tradição, e tendo assumido em tempos um importante papel na vida social da cidade, de toda a região Alentejo e de parte da Extremadura espanhola, o São Mateus merece recuperar a relevância perdida.

O evento chegou a marcar o ano agrícola, aproveitava-se a feira para a compra de utensílios e sementes para as novas colheitas. Era o período de férias de quem trabalhava no campo. Famílias inteiras assentavam arraiais na mata da Piedade.

Hoje os tempos mudaram, os hábitos são outros mas o São Mateus pode e deve continuar a ser a festa grande da cidade e da região. Para isso não podemos descurar os fatores de atração, nem as exigências que um evento desta natureza requer nos nossos dias.

Vejamos o Festival do Crato, a Fiape ou a Ovibeja. Que nos sirvam de exemplo. Sempre ouvi dizer que não deve haver vergonha de copiar o que está bem feito.

Eu acredito no ressurgir das festas da cidade, no reforço da sua importância, assim o município se empenhe, a Confraria deixe e todos os elvenses se envolvam ativamente.

Entrámos em contagem decrescente. As manhãs serão cada vez mais frescas e o cheiro espalhar-se-á pelo ar.

“Taram, taram, taram”.

Venha a festa. Honre-se o Senhor Jesus da Piedade.

Palavras leva-as o vento.

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Nuno Franco Pires, nasceu em Elvas em 1975 e é um alentejano orgulhoso das suas raízes. Gosta de escrever – sempre gostou. Começou por pequenas histórias, onde os amigos de infância eram os protagonistas, passando pelo blog Dualidades (asdualidades.blogspot.com) do qual foi coautor e onde abordava temas que marcavam a actualidade. Cativam-no as relações humanas e a interacção entre as pessoas; é sobre elas que escreve. Tem participado e vários concursos literários tendo ganho uma menção honrosa no prémio Glória Marreiros, organizado pela Câmara Municipal de Portimão, com a novela "Amor entre muralhas" escrita em parceria. Participou na colectânea "Ei-los que partem" da editora Papel d' Arroz e com a chancela da Chiado Editora editou o seu primeiro romance, "Searas ao vento". Colaborou com a TV Guadiana, publicando semanalmente, pequenas histórias da sua autoria e incorpora o painel de tertulianos da rúbrica "Conversas de Barbearia" do blog Três Paixões.