Início Opinião Graça Amiguinho Cuidar com amor

Cuidar com amor

COMPARTILHE

Lidar com as dificuldades não é tarefa fácil nem doce.

Aceitar o que a natureza nos traz, sobretudo inesperado, é, para muita gente, uma amargura permanente, uma angústia destruidora, uma vida reduzida a farrapos.

Saber dar a volta “por cima” como é costume dizer-se, é sinal de um desejo forte de ajudar quem, à nossa volta, ou na nossa própria família, precisa encontrar uma mão amiga, um abraço cheio de ternura, um sorriso de esperança.

Era eu uma criancinha, quando uma das tias-avós com quem coabitávamos, se viu confrontada com a presença indesejada de um cancro na face.

Um sinal mal avaliado nesse tempo, pois isto ocorreu há mais de 65 anos, pelo médico da nossa Aldeia que, sem pensar nos riscos que corria, lhe atou um fio e o quis arrancar…

A tia Bina foi para o IPO de Lisboa, mas depressa voltou pois nada havia a fazer.

Nunca me esqueço dos cuidados da minha Mãe, do meu Pai, da outra Tia, para com ela. Foi tratada com o maior carinho. Nada lhe faltou até chegar a hora da partida.

Ninguém se lamentava do cansaço, dos cheiros e, eu e as minhas irmãzinhas, amávamos a Tia e nunca dela nos afastámos.

Esses exemplos ficam gravados na memória e no coração para sempre.

Assim fica-se mais forte e, sem o sabermos, mais preparados para o que vier.

E tantas coisas a vida nos reserva.

Tinha eu vinte e quatro anos e nasce o meu primeiro filho com um problema completamente desconhecido para todos nós, inclusivamente para os médicos que, só passados meses, nos disseram que o menino sofria de “nanismo”, palavra que não fazia parte da nossa linguagem corrente.

Foi um choque, quando fomos confrontados com a realidade. O menino foi amado e tratado sempre com todo o desvelo e nunca nada lhe faltou. Todas as suas limitações físicas têm sido enfrentadas com a mesma coragem e calma, tanto por ele próprio como por nós, seus pais, o seu irmão e familiares.

Mas outras situações foram tendo lugar na minha vida. Desde o cuidar de uma Tia, a tia que havia ajudado a sua própria irmã, como já contei, e que apenas nos deixou com a linda idade de noventa e sete anos, ao apoio dado ao meu Pai, anos acamado e de quem cuidei a tempo inteiro, sem ajuda de ninguém.

Com ele vivi momentos de grande cumplicidade, bem diferentes da nossa vida de outros tempos, longas conversas de uma profundidade espiritual impensável, sabendo que a morte seria o destino mais próximo.

Poderá parecer inusitado estar a contar estes aspetos da minha vida mas parece-me interessante para que, quem hoje passa por esses momentos e tem a seu cargo os familiares com problemas, se sinta confortado por estas minhas palavras.

E quando a doença bate à porta do amor da nossa vida? Como reagimos? Como nos sentimos? Que atitude tomamos?

Tanto, tanto teria para vos contar sobre o que tenho vivido com o meu marido, o Pai dos meus filhos, o meu amor de sempre!

Mas ficará para outra ocasião. Ele sabe como é amado, respeitado e cuidado em cada dia que passamos juntos. Sem reclamações, sem enfados, sem palavras azedas, sempre com a mesma ternura, o mesmo amor, amor incondicional, puramente fraternal, porque a vida assim o exige.

Nada mais bonito do que “Cuidar com amor”.