Da Importância do Alto

Opinião - Risoleta Pinto Pedro
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Em Congeminações de um Neopitagórico o filósofo António Telmo que adoptou o Alentejo durante décadas, escreve o seguinte:

«As aldeias, as vilas e as cidades perderam a naturalidade antiga, como direi?, aquela relação serena da terra com o céu que se exprimia pela arte das chaminés, dos campanários e dos galos indicando a direcção das brisas e dos ventos. Hoje, por toda a parte, onde há casas, oferece-nos o espectáculo irritante de todos os telhados com antenas de televisão, lembrando esquisitos insectos». Acrescenta que as antenas usurparam «o lugar das chaminés». Noutro lugar afirma que as televisões usurparam o lugar das lareiras, «com toda a família à volta». Mas já nem isso é verdade. Cada elemento da família tem uma televisão na mão onde vê o que lhe apetecer. Depois da congregação, a dispersão.

Este texto de Telmo já tem uns anos, é ainda anterior à publicação onde o leio, que é de 2009. É contemporâneo de quando as antenas ainda tinham utilidade. Hoje, a situação é ainda mais grave, porque em algumas partes, os telhados estão ainda cheios do ferro-velho que são estas antenas tornadas inúteis pelo cabo, pelo wireless. Tornaram-se uma espécie de instalação aérea de um criador caótico e sem intenção. Só com a progressiva mudança causada pelo arranjo dos telhados e pela substituição das casas, estas antenas irão progressivamente desaparecendo, substituídas pelos painéis solares. Pelo menos estes possuem uma utilidade ecológica, do mal o menos. Os telhados das casas, ainda que se mantenham fiéis às tradicionais telhas, têm sido palco de progressivas mudanças reflectindo a “evolução” tecnológica, mas sem grandes preocupações estéticas. Uma das mais belas recordações que tenho da infância e que refresco em cada ida minha ao Alentejo são as chaminés das casas, nomeadamente das casas das minhas avós, que passei mais tempo a contemplar. Disse “das minhas” e não “dos meus” avós, porque eram elas as responsáveis pela saída do fumo, embora eles também contribuíssem para as manterem belas através do trabalho regular de caiar as paredes. Chaminés alentejanasCom a preocupação exclusiva do utilitarismo, receio que percamos o hábito de olhar para o alto. Numa recente viagem de comboio, um dos centros de atracção do olhar eram as chaminés e os campanários, cuja estética ia mudando consoante a região. Era possível saber onde nos encontrávamos só pela forma dos campanários. Sabê-lo-ão hoje as crianças, os jovens e mesmo a maioria dos… adultos? Falo disto como sendo tema de primordial importância, não é um fait-divers, talvez estejamos mesmo perante uma questão de sobrevivência.

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Outra bela referência da minha infância era o cata-vento. Hoje existem uns sacos para capturar os ventos e assim indicarem a direcção desse grande viajante, mas não sei até quando haverá pessoas interessadas em saber de que lado sopra o vento, ou se sopra, ou como está a lua, ou ainda de que cor são as nuvens sobre as quais se deita o sol. Há sempre uma notificação a chamar, uma mensagem urgente, um lembrete de qualquer coisa sem importância, pelo menos muito menos importante do que a lua, o sol, as nuvens, as chaminés ou os cata-ventos.


A articulista actua como Colaboradora do Portal Elvasnews e o texto acima expressa somente o ponto de vista da autora, sendo o conteúdo de sua total responsabilidade.

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.