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Opinião de Risoleta C Pinto PedroFoi no Museu de Arte Antiga que o conheci. Tem, no apelido, o nome da cidade onde nasceu. É conhecido como Álvaro Pirez d’Évora, e diz o folheto do Museu que é o «primeiro pintor português de quem se conhecem obras seguramente de sua autoria». É numa exposição temporária, actualmente neste Museu, que pode tomar contacto com a sua obra, ali generosamente representada. A exposição tem o seu nome, e como subtítulo: “Um pintor português em Itália nas vésperas do Renascimento”. Estará patente até ao dia 15 de Março do próximo ano; recomendo demorada visita. Terá nascido no último quartel do século XIV e não terá permanecido muito tempo em Évora (cerca de duas décadas?), pois supõe-se que no início do século XIV já estaria em Itália. Em 1410 já há comprovativo da sua presença em Toscana, Prato, Lucca, Pisa e Volterra. Terá aprendido com a escola de Giotto, tendo-se seguido a influência «dos grandes mestres florentinos do tardo-gótico». Não se deixa permear significativamente pelo novo estilo Renascentista, é mais o gótico final que nele é reconhecível.

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Na sua mudança de vida do Alentejo para Itália, mantém-se a presença da planície. Se ao olhar em torno de Évora o que se lhe apresentava aos olhos era a plana extensão, também o Mediterrâneo, que passará a ser o seu cenário, é uma «grande planície líquida sem fim», uma passadeira de artistas em amplo intercâmbio artístico. A Península onde nasceu também não estava assim tão longe.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

No momento em que visitei esta exposição, já no início do Advento, especialmente sensível ao milagre renovado e renovador, não fiquei indiferente à presença maioritária da Virgem com seu Filho, e da Sagrada Família, quer deste, quer de outros pintores do Mediterrâneo daquela época.

AnunciaçãoUm deles, particularmente, me chamou a atenção: “A Virgem e o Menino com dois Anjos”, do mesmo Álvaro Pirez, talvez pela teatralidade da peça. Sendo um pintor onde o gótico tardio ainda permanece, é como se a pintura, quase sem revelar o Renascimento, saltasse directamente para o barroco com sua dimensão de espectáculo: os anjos abrem uma espécie de cortina de palco que revela Mãe e Filho, e a cena religiosa torna-se uma espécie de cena teatral. O corpo do Menino parece desenhado a partir de pequenos ramos de árvore a adivinhar novos rebentos, madeira sobre madeira, como se conhecesse a fundo os corpos das marionetas, quem sabe se dos bonecos de Santo Aleixo… O Menino desenha um esquadro com as suas pernas, e toda a pintura, desde o decote da Virgem às pregas dos vestidos dos Anjos são de uma regularidade e de um rigor feitos a régua, esquadro e compasso. Duas colunas de uma espécie de cadeirão onde está colocada a Virgem, dividem a cena em três partes e culminam com seu simbolismo, o espaço de reflexão, extenso como a planície em cujo útero nasceu. Com estas imagens saúdo o leitor desejando-lhe um Natal com muita arte e a serenidade que a contemplação destas imagens nos oferece. Ainda que não seja crente. Tal como o meu avô, racionalista convicto, se sentava à lareira nas vésperas do Natal, com sua ronca, cantando músicas ao Menino Jesus. Tenho saudades desse tempo de que apenas ouvi falar. O Natal não é uma crença, é uma festa para os afectos que a arte actualiza em nós. Tenha um Feliz Natal!

Virgem e Menino _ Álvaro Pirez de Évora