D’Amizade e da Saudade

Paula Freire, opinião
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Tenho saudades tuas, meu amigo.

Das palavras que trocávamos no silêncio do olhar.

Da cintilação dos caminhos que os nossos pés viajaram enquanto descobríamos sonhos diferentes de um mesmo futuro. E deles te rias porque éramos crianças tolas a brincar ao faz-de-conta, dizias. E era tão bonito o teu sorriso.

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Do beijo simples que me deixavas na testa, quando nunca podias partir sem a ternura do olhar depois de uma discussão. Daquelas cheias de palavras azedas que morrem logo a seguir, diálogos que só os amigos entendem.

Da tua integridade honesta e tão forte que, às vezes, me fazia preferir a doçura leve da mentira, só porque doía menos. E ainda assim, nunca desistias da verdade só porque te custava mais.

Do tempo que sabias parar como se para a corda de um velho relógio de parede, sempre que partilhávamos o aroma de um café acabado de fazer. A pressa é a forma mais rápida de ser infeliz. Acreditavas. Com isso, compreendi que a paz é uma pausa de intimidade com a vida e o modo mais fácil de encontrar alegria.

Da fragilidade delicada que em ti despertavam as vozes de wind of change nas longas noites de agosto. E eras menino outra vez dentro de uma música que era tão tua.

Da maneira triste, mas grandiosamente linda, como me ofereceste a maior lição dos homens: que nunca podemos adiar um gesto de amor.

Porque um dia partimos e de nós apenas se faz memória um passado sempre presente.

Tenho saudades tuas, meu amigo.

Tenho saudades de encontrar num abraço o coração de quem me faz falta.


A articulista actua como Colaboradora do Portal Elvasnews e o texto acima expressa somente o ponto de vista da autora, sendo o conteúdo de sua total responsabilidade.

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Paula Freire
Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside actualmente em Vila Nova de Gaia. Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas das Relações Humanas e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada. Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias. O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora de imagens de capa de obras poéticas lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021. Nos últimos anos, descobriu-se também no seu ‘amor’ pela arte da fotografia onde aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.