Paula Freire, opinião
   Publicidade   
   Publicidade   

Dizem que o sorriso é a curva mais bonita do nosso corpo.

   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 

Talvez por isso me pareça que andamos todos por aí um tanto ou quanto deformados. De curvas desenhadas ao contrário no avesso dos dias. Cabeças que se levantam somente para mostrar olhos enevoados, bocas que se abrem para cuspir azedume. E nessa tal curva mais bonita do corpo, a ironia e o sarcasmo a refletirem-se no espelho.

E porque haveríamos de ter nós as melhores razões para sorrir?… O cenário em redor é grotesco!

Eu responderia que é igualmente intemporal. Se a memória nos falta, que busquemos o desenrolar da história. Ela é a prova de que se alguém procura a felicidade total desde que nasce até que morre, bem passa a vida ao sabor de uma quimera. Muitos sonhos se concretizam. Mas esse, certamente não é um deles. Onde existimos, não existem paraísos. Dado adquirido.

Lia há uns tempos umas linhas de um conhecido escritor português da atualidade, onde o mesmo referia que “a nossa ansiedade, raiva e frustração são sinais de que algo de essencial está errado entre nós e o mundo, e talvez não seja o mundo”. Pois será aí, a meu ver, que está o busílis da questão.

O que em nós é realmente puro nunca é vítima dos tempos e marés… Porque o que é puro e verdadeiro reflete as qualidades que oferecemos a nós próprios e a todos aqueles em que, de alguma forma, tocamos.

Talvez possamos, sem bons ou maus motivos, ter mais sorrisos para oferecer do que esperar. Saibamos, porventura, não viver os dias numa luta para nos fazermos deuses no pensamento alheio, à espera de deixar na areia as pegadas que o mar do mundo sempre acabará por apagar. Porque os que cá permanecem ainda, mesmo já depois de um dia terem partido, certamente menos preocupados estariam em memórias póstumas e mais em partilhar coração e mãos. Sim, porque a reciprocidade não se faz de partilhas de publicações sorridentes em redes sociais, mas na intenção concretizada em ato. E, sobretudo, não só do que menos falta nos faz, mas muito mais da capacidade de entrega do bem que temos cá dentro. Quando fica no prelo, o sorriso pode conquistar muitos adeptos e encher-nos o ego, mas não planta nem semeia, não conquista terreno. Logo, na prática, efetivamente nada colhe senão a pura vaidade de cada um.

Gosto de acreditar nas palavras de Guerra Junqueiro quando um dia nos afirmou que “o sorriso que ofereceres, a ti voltará outra vez”. Talvez seja exatamente assim que uns poucos tenham conseguido alcançar o almejado por tantos: possuir em si não apenas uma, mas todas as vidas.

Pois que hoje, e porque para alguma coisa de útil deve servir a comemoração destes dias de cunho mundial, num tempo de lamentos muitos procuremos a genuinidade dos sorrisos poucos.

De que sorrisos somos feitos——

Dia Mundial do Sorriso, celebrado na primeira sexta-feira de Outubro, desde a sua criação em 1999 por Harvey Ball, autor da internacionalmente reconhecida imagem, ‘smiley’.

Artigo anteriorPortugal está na Final do Mundial!
Próximo artigoMisericórdia de Estremoz investe 2,2 ME em unidade de cuidados continuados
Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside actualmente em Vila Nova de Gaia. Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas das Relações Humanas e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada. Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias. O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora de imagens de capa de obras poéticas lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021. Nos últimos anos, descobriu-se também no seu ‘amor’ pela arte da fotografia onde aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.