Festas de São Mateus - Elvas
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Rebentam os foguetes: sabem a manhãs frescas e a outono a chegar. As bandas, alinhadas, percorrem as ruas, de fardas engomadas e músicas ensaiadas: é festa.

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Tudo é azáfama, como se o tempo faltasse ou, pelo contrário, se desejasse vê-lo passar depressa.

Os romeiros desfilam, revivendo a festa, em carros de canudo enfeitados: dançam, cantam, bebem copos com os amigos, tudo é alegria. O dia é especial, escondido na rotina de outro, igual a muitos: é dia de pendões.

A família regressa, em busca de afetos, de aromas e sabores de outrora, de tempos felizes, que se repetem a cada ano, quando o setembro caminha para o fim e os corações batem em uníssono.

Nuno Franco Pires
Nuno Franco Pires, escritor

Ao fim da tarde, a praça enche-se, o sino repica a compasso e a procissão sai. São às centenas, aos milhares, os rostos recolhidos, de preces nos lábios, mazelas na alma e fé nos corações.

Ouve-se o hino, soa a beijos ternurentos, abraços, revigorantes, a saudade. A melodia embala à revisitação de outros dias que, como este, foram especiais.

O pendão, grená, sai à luz e reencontra, um ano mais, o seu povo, prostrado, em oração; velas e pés descalços prometidos em hora de aflição. Celebra-se a vida e a morte, lambem-se as feridas, vertem-se lágrimas, rasgam-se sorrisos e todos regressam (mesmo os que já partiram).

É o reencontro, o mistério da vida em poucas horas, que se tornam segundos, de tão efémeros: intensos.

Despertam a avidez de outro dia, igual, no próximo ano: “assim haja vida e saúde e o Senhor da Piedade o permita”.

As emoções estão à flor da pele, ao toque, ao riso, ao olhar – tudo é velho, sendo novo.

Dia de Pendões.

Rebentam os foguetes, sabem a noites frias, a brinhol, torrão e gemas.

Depois, cessam as luzes dos fogos-de-artifício que encheram o céu, negro, salpicado de estrelas, e ruma-se a casa, de alma cheia e cansaço no corpo.

Amanhã é dia de arraial

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Nuno Franco Pires, nasceu em Elvas em 1975 e é um alentejano orgulhoso das suas raízes. Gosta de escrever – sempre gostou. Começou por pequenas histórias, onde os amigos de infância eram os protagonistas, passando pelo blog Dualidades (asdualidades.blogspot.com) do qual foi coautor e onde abordava temas que marcavam a actualidade. Cativam-no as relações humanas e a interacção entre as pessoas; é sobre elas que escreve. Tem participado e vários concursos literários tendo ganho uma menção honrosa no prémio Glória Marreiros, organizado pela Câmara Municipal de Portimão, com a novela "Amor entre muralhas" escrita em parceria. Participou na colectânea "Ei-los que partem" da editora Papel d' Arroz e com a chancela da Chiado Editora editou o seu primeiro romance, "Searas ao vento". Colaborou com a TV Guadiana, publicando semanalmente, pequenas histórias da sua autoria e incorpora o painel de tertulianos da rúbrica "Conversas de Barbearia" do blog Três Paixões.