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Discotecas, álcool e violência

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Não fui frequentadora assídua desses espaços porque o ruído não combina bem comigo. Contudo, várias vezes acompanhei os meus filhos quando ainda não tinham carta de condução. Certas vezes era o pai que os ia levar e buscar à hora combinada.

Nunca os meus filhos passaram por situações desagradáveis, felizmente. Iam para se divertirem e poderem estar com os amigos. Também bebiam uns copitos sem ultrapassarem os limites. Falo no passado porque hoje já não têm os mesmos hábitos e, muito raramente, vão a esses lugares.

Na década de noventa do século passado, a minha família trabalhou na área da moda e algumas vezes fizemos passagem de modelos em locais muito diversos. No Colégio Internato dos Carvalhos vários anos animámos a semana cultural com um evento desse tipo, sendo os alunos os manequins participantes com muito orgulho para eles e famílias.

Mas certo verão fomos convidados por uma amiga a fazer uma grande passagem de modelos numa discoteca com bastante prestígio e que, por isso, atraía muitos jovens, camada que nos procurava para os momentos mais significativos das suas vidas, as grandes cerimónias.

Aceitámos o convite. A passagem de modelos decorreu com muita ordem e uma assistência interessada. Connosco, no nosso carro, levámos uma menina, nossa empregada, a mãe e um irmão.

Já depois do evento, e no meio da multidão que lá se encontrava, o irmão da nossa empregada, sem qualquer intenção, tocou no braço de um jovem e, certamente, o copo que ele tinha na mão, caiu ao chão. Como o lesado já não devia estar muito «católico», como costuma dizer-se , virou-se para ele e começou a bater-lhe. Esse ato violento despertou a atenção dos seguranças, que se aproximaram, levaram para outro local o agressor ou agressores, pois era um grupo de amigos , e, segundo informações posteriores, deram-lhes «pancada velha» que bastasse, exageradamente.

“Canto a minha terra, a minha gente ! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho
“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo, a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho

Perguntarão os meus amigos, o que tem este relato de novo e diferente de tantos outros?

Pois por ser algo bastante original e porque se passou comigo, achei oportuno narrá-lo ao fim de mais de vinte anos.

Ao regressarmos a casa, longe já da discoteca, em pleno descampado, numa estrada bastante solitária, o que nos aconteceu?

Numa reta aparecem dois carros que nos ultrapassam e se atravessam na via, impossibilitando-nos de avançar. Ora, o meu marido tinha sido operado ao coração há muito pouco tempo, após um enfarte agudo de miocárdio e feita a revascularização das coronárias. Todos os meus cuidados eram para ele pois sabia bem o que já tínhamos sofrido.

Então que fiz eu? Sim, eu, uma mulher, fraca, mas sem medo de enfrentar as feras que nos perseguiam ?!

Combinei com o meu marido que eu sairia do carro, ele trancava as portas, pois a vontade dos rapazes bêbedos e sedentos de vingança era apanharem o jovem que vinha connosco e matá-lo, ali, à nossa frente, tal era a força do álcool que fervilhava dentro deles.

A mãe e a irmã do jovem, choravam, cheias de medo e o rapaz, coitado, devia estar morrendo de susto. Eu só não queria que o meu marido se enervasse ,não fosse acontecer-lhe algo de muito mau.

Assim fizemos. Na escuridão da noite, nessa estrada, no meio de um ermo, apareço eu diante do grupo de perseguidores, falo com eles, aviso-os de que não pensem sequer, destruir o nosso carro e informo que, se o meu marido tivesse algum problema grave eles seriam acusados como responsáveis. Mas tudo isto dito com a serenidade de quem sente estar protegida por Alguém muito mais forte .

Fizeram-me queixas dos seguranças e talvez até um deles tivesse um braço partido, aconselhando-o eu, a ir quanto mais rápido, melhor, ao hospital.

Quis Deus que a minha calma e sangue frio fossem um balde de água fria que apagou a fogueira do álcool que corria nas veias daqueles jovens, endinheirados, emigrantes, por sinal, mas que quando chegavam a Portugal, gastavam o que durante um ano andavam a amealhar.

Os rapazes lá se meteram nos carros, seguiram o seu caminho e, só depois de terem sumido na reta, eu entrei no meu carro.

Mesmo assim, chegaram ainda a andar à procura do nosso amigo e este, cheio de medo , pouco saía de casa.

As pessoas podem ter tendências violentas e, se a elas se juntarem umas boas pingas de álcool, tornam-se explosivas, irracionais e incontroláveis.

Não adianta fecharem discotecas, outras abrem a seguir. Importa é haver leis que controlem o consumo de álcool.

Ensinar os jovens a distraírem-se e não se iludirem com falsas felicidades.

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