Paula Freire, opinião
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Do alto da janela da minha memória vislumbro um olhar que abarca próximas recordações, tão languidamente quentes que adoçam o coração…

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Um sol que adormecia a madrugada e vinha de mansinho. Espreitava a varanda ainda cheia de silêncios, a deixar a alma envolver-se, docemente, nos acordes cintilantes dos primeiros gorjeios dos pássaros encantados. Porque encantado era esse mundo pleno de sonatas e pasodobles que só a luz do paraíso interior de uma criança permite alcançar.

Do alto da janela da minha memória invade-me a fragrância fresca do café acabadinho de aconchegar na quietude da velha cafeteira de alumínio. E do ovo frito que a frigideira deixava repousar no calor de uma chama vestida de diáfanos azuis e dourados. Acordes de vozes a despontar lá longe nos campos, à velocidade cadente dos tratores que sulcavam a terra húmida do orvalho da noite. Sons cantantes que, num crescendo lento, desapareciam pela branca brisa da manhã. E depois… O momento antecipado à distância: a hora de saborear aquele pão quente e estaladiço que o padeiro deixara pendurado no antigo portão de metal, colorido de mil tons…
Do Alto da Janela

Assim eram também de mil tons os espantos que a natureza me oferecia aos assombrosos sentidos de pequeno ser. Rasgos anilados de um céu que parecia tão perto de tocar. Cor de esmeraldas as árvores que a montanha ao redor abrigava no seu êxtase protetor. Sombras de terra pálida, as altas espigas do centeio que os pés enlevados exploravam, num caminho imaginado para o mar, entre risos e gargalhadas que todos soltávamos ao vento.

E assim se percorriam livremente as certezas de um presente infinito, sem espaço nem hora, sem futuro nem tempo. Apenas o sentir dos momentos, dos lugares, daqueles de quem nunca nos despedimos porque estamos sempre certos de voltar.

Ficam as memórias do alto da janela da minha casa, com sabor a castanhas assadas na fogueira da cozinha velha, caiada do negro carvão. E da chaminé. A secular chaminé que recebia a primavera a beijar as rosas soltas no intocável canteiro do jardim. Do meu passado.

Como Alberto Caeiro, “da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade”.

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Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside actualmente em Vila Nova de Gaia. Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas das Relações Humanas e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada. Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias. O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora de imagens de capa de obras poéticas lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021. Nos últimos anos, descobriu-se também no seu ‘amor’ pela arte da fotografia onde aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.