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Dobram os sinos

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©A Serra
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Somos Património Mundial. Dizemo-lo com o orgulho de quem reconhece como único o conjunto de monumentos que nos foi legado.

Vamo-nos afirmando no panorama turístico nacional, sustentados pelo património militar de indubitável referência internacional, mas também pelo civil e religioso.

Sobre este último debruço hoje a minha atenção.

É habitual ouvirmos inventariar o património religioso da cidade: conventos, igrejas, etc. Contudo, nem todo está acessível ao comum dos visitantes. Nas últimas décadas tem vindo a recuperar-se algumas das principais igrejas, mas muitas outras continuam fechadas, carentes de intervenções que, com segurança, serão tudo menos baratas.

De momento, a antiga Sé, igreja do Salvador, Alcáçova, Domínicas, São Pedro, Terceiros, Misericórdia e São Domingos encontram-se em razoável estado de conservação, regularmente de portas abertas, algumas para culto e outras para visitas turísticas. Abstenho-me hoje de comentários relativamente a horários de abertura e recursos humanos que asseguram a receção ao turista.

Nuno Franco Pires
Nuno Franco Pires, escritor

Porém, o património religioso da cidade é mais vasto do que isso. Algumas das nossas igrejas são modestas na arquitetura e na decoração, mas são o espelho da nossa cultura e identidade e merecem incorporar também este roteiro.

As igrejas de São Lourenço, Nossa Senhora da Guia, Nossa Senhora das Dores, São João da Corujeira, Santa Clara, Nossa Senhora da Conceição (e julgo não me esquecer de nenhuma) merecem igual destino, ter as portas abertas para quem nos visita enriquecendo a oferta e mostrando o pouco mais da nossa essência. Já sem falar das extra-muros Capelas de Santo Amaro e de Nossa Senhora da Ajuda. Dir-me-ão que algumas não estão em condições de ser visitadas, mas deverá trabalhar-se nesse sentido.

Aproxima-se a passos largos a Páscoa e, um ano mais, na habitual procissão do Mandato, a visitação às igrejas realizada na noite da quinta-feira de Endoenças, contornará alguns desses templos encontrando-os de portas fechadas, impedindo a tradição de ser cumprida na totalidade.

A minha intenção ao redigir este (como todos os outros) artigo de opinião é despertar consciências e alertar para situações que julgo poderem ser melhoradas para beneficio comum. Não me importam os responsáveis, mas a discussão aberta dos assuntos e a procura de soluções. Neste caso em concreto o município tem feito o possível, mas o património pertence à diocese, certamente, digo eu.

Numa cidade como a nossa, património da humanidade, deveria haver uma coordenação entre as diversas forças vivas, contribuindo ativamente para a valorização do todo. Ou não?

E se, ao abrigo da classificação, os proprietários do centro histórico têm um conjunto de obrigações quanto ao estado de conservação dos seus imóveis, não serão as leis transversais a todos? Ou não somos todos filhos do mesmo Deus?

Palavras leva-as o vento.

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Nuno Franco Pires
Nuno Franco Pires, nasceu em Elvas em 1975 e é um alentejano orgulhoso das suas raízes. Gosta de escrever – sempre gostou. Começou por pequenas histórias, onde os amigos de infância eram os protagonistas, passando pelo blog Dualidades (asdualidades.blogspot.com) do qual foi coautor e onde abordava temas que marcavam a actualidade. Cativam-no as relações humanas e a interacção entre as pessoas; é sobre elas que escreve. Tem participado e vários concursos literários tendo ganho uma menção honrosa no prémio Glória Marreiros, organizado pela Câmara Municipal de Portimão, com a novela "Amor entre muralhas" escrita em parceria. Participou na colectânea "Ei-los que partem" da editora Papel d' Arroz e com a chancela da Chiado Editora editou o seu primeiro romance, "Searas ao vento". Colaborou com a TV Guadiana, publicando semanalmente, pequenas histórias da sua autoria e incorpora o painel de tertulianos da rúbrica "Conversas de Barbearia" do blog Três Paixões.